Lava-Jato na telona

Lava-Jato na telona

» Bernardo Bittar Especial para o Correio
postado em 07/09/2017 00:00
 (foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)

Polícia Federal ; A lei é para todos conta uma história que ainda não acabou. Atendo-se à visão da Polícia Federal, o filme deixa escapar alguns dos últimos capítulos do maior escândalo de corrupção do país, como a gravação de Joesley Batista acusando um ex-procurador da República de traição e citando os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF); o envolvimento do ex-presidente Lula no tríplex e no sítio de Atibaia (SP); a atuação do juiz Sérgio Moro; e a importância de Brasília, onde a descoberta de um posto de gasolina usado como ponto de encontro para pagamento de propina originou a investigação.

O filme é dirigido por Marcelo Antunez, que não vê problema no possível envelhecimento da trama. ;O que me atraiu para o projeto foi exatamente falar de um assunto vivo, que está acontecendo. Brasília, por exemplo, não é o ponto central. Nem o Ministério Público. A ideia é mostrar alguns bastidores do caso, começando pela investigação de doleiros, esbarrando rapidamente em uma ligação com executivos da Petrobras, se desdobra com executivos importantes e atinge o Legislativo numa história que é fictícia;, afirmou.

Interpretando o ex-presidente Lula, Ary Fontoura comenta detalhes da trama. ;Faço a condução coercitiva, quando o Lula foi chamado para depor. Não há muito destaque, mas acredito que tenhamos que ver a situação como um todo: o filme pretende levantar um debate sobre o assunto mais sério que está se discutindo hoje no país, e eu espero que as pessoas compreendam. O bom das biografias e das histórias reais que viram filme é, exatamente, mostrar que as suas atitudes podem influenciar o enredo de uma obra de ficção ou mudar os rumos do país;. O filme entra em cartaz hoje em Brasília e deve permanecer até o fim de outubro.



Crítica

Como aquele amigo bobo


; Leonardo Cavalcanti*

Dos morros cariocas aos salões acarpetados de Brasília, cautela e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém, principalmente quando se trata de corporações do Estado, protagonistas, em alguns momentos, de guerras de poder e vícios. Maniqueísmos, assim, devem ser vistos com cuidado. O filme Polícia Federal ; A lei é para todos se apressa ao tentar enquadrar investigadores como heróis nacionais, elevando à última potência lugares comuns produzidos em debates cinematográficos e políticos.
A partir do olhar do cinema, A lei é para todos é infantil, com diálogos rasteiros e cacoetes de filmes policiais B. Apesar de um início um pouquinho mais empolgante, a ponto de enganar o espectador, o que vem do meio para o fim é um amontoado de clichês de imagens e diálogos. A película de Marcelo Antunez é constrangedora, servindo apenas para cenas de ação, onde os conflitos e a tensão de policiais legítimos ficaram de fora, esquecidos pelo diretor.
Ao se decidir por um lado, o policial, o filme não avança, parecendo uma grande narração cronológica de fatos escolhidos para exaltar o trabalho da PF, o que, por vias tortas, acaba desqualificando a corporação. Tal qual aquele amigo bobo que apenas exalta as suas qualidades a noite toda.

* Editor de Política e pós-graduado em cinema pela Universidade de Brasília (UnB)


Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação