Para nunca esquecer

Para nunca esquecer

Desde o acidente radioativo de Goiânia, em 1987, as vítimas se mobilizam para manter viva a memória da tragédia. Monumento projetado pelo artista plástico Siron Franco aguarda construção há 25 anos

» NATÁLIA LAMBERT ENVIADA ESPECIAL » GUILHERME GOULART
postado em 07/09/2017 00:00
 (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - 24/8/17)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - 24/8/17)


Goiânia ; Encantada com o brilho azul do pó branco que o pai havia levado para a casa, Leide das Neves Ferreira se divertiu com aquilo como faria qualquer criança de 6 anos. Com as mãos ainda sujas, comeu um ovo cozido no jantar. O fato de ter ingerido o césio 137 fez com que Leide se tornasse um foco de radiação, tornando, praticamente, impossível a medição. Estima-se que a menina tinha 2,5 mil rads no corpo ; a quantidade considerada moderada para um ser humano é de 20 rads. A morte da menina deu a dimensão da tragédia que a capital de Goiás vivia em setembro e outubro de 1987, história que o Correio conta em série de reportagens desde domingo.

Passada a fase crítica do maior acidente radioativo do mundo em área urbana, o governo de Goiás criou, em fevereiro de 1988, a Fundação Leide das Neves Ferreira (FunLeide), posteriormente, transformada em Superintendência Leide das Neves Ferreira (SuLeide), para prestar assistência às vítimas. Entretanto, em 2011, a Lei n; 17.257 dividiu a Suleide em Centro de Assistência ao Radioacidentado (C.A.R.A.) e em Centro de Excelência em Ensino, Pesquisa e Projetos Leide das Neves Ferreira (CEEPP-LNF).

A iniciativa foi malvista pelas associações de vítimas, que, ao longo dos últimos 30 anos, lutam para que o acidente não seja esquecido. ;Nesse tempo, não foi feito nenhum esforço oficial no sentido de relembrá-lo. Ao contrário, ao tirar o nome da Leide do centro, isso ficou muito claro. Ora, o nome Leide é um ícone, um símbolo. Na medida em que a sociedade se esquece, não policia o governo;, diz Julio de Oliveira Nascimento, coordenador do Fórum Permanente Sobre o Acidente com o Césio-137.

Criado em 24 de abril deste ano, o fórum reúne estudiosos, sindicatos e as principais associações de vítimas. A equipe pretende recompor a história do acidente para além do discurso oficial. ;O principal objetivo é não deixar que essa história seja enterrada com os rejeitos radioativos, em Abadia de Goiás (leia abaixo), desejo do governo desde o início. A história oficial é cheia de lacunas e meias verdades, e a população merece conhecê-la por inteiro;, alerta Julio.

O diretor-geral do C.A.R.A, André Luiz de Souza, explica que, na reforma administrativa de 2011, o estado entendeu que deveria dar maior importância às pesquisas realizadas pela instituição. Ele conta que, em uma reunião, inclusive com a presença das associações, chegou-se à conclusão de que seria melhor manter o nome da Leide só no centro de pesquisa, por causa da dimensão que teria. ;Se incomoda as vítimas, principalmente, as que têm ligações familiares com a Leide, deveriam ter questionado. Aí, surge essa demanda agora, nos 30 anos? É só fazer um requerimento à Assembleia Legislativa e pedir para mudar de novo;, comenta André Luiz, ressaltando a preservação da história.

Entretanto, o tempo faz com que a tragédia se apague a cada ano. Tema obrigatório nas escolas de ensino médio em Goiás e no DF até a década de 1990, atualmente, muitos jovens não têm ideia do que aconteceu em 1987. Responsáveis pela Associação das Vítimas do Césio 137, Odesson Alves Ferreira e Suely Lina de Moraes recontam tudo em palestras, mas comentam que o interesse é cada vez menor. ;Infelizmente, no Brasil, a memória é curta. E não se aprende nada. Se acontecer outro acidente, quebrarão a cabeça da mesma forma;, lamenta Odesson.

Até mesmo na Rua 57, outro símbolo do acidente, o caminho segue ao esquecimento. A viela termina no Mercado Popular da Rua 74. Ali, jovens bebem, comem e escutam música diariamente sem imaginar o que houve há três décadas. Há 25 anos, os sucessivos governos prometem a construção de um memorial no lote revestido de concreto onde se violou o aparelho que continha o elemento radioativo, mas nada sai do papel.

O projeto, do artista plástico Siron Franco (leia Três perguntas para) pretende fazer o visitante entrar em uma cápsula gigante. E o mais importante: um contador de radiação mostrará que não há perigo no local.;O memorial transformaria dor em alegria;, acredita Odesson. Segundo o governo de Goiás, o projeto do Memorial das Vítimas do Césio 137 está na pauta da gestão de Marconi Perillo (PSDB-GO).

Além disso, Siron montará um painel sobre o tema. O trabalho ficará no Instituto de Assistência dos Servidores Públicos do Estado de Goiás (Ipasgo). É lá onde as vítimas do césio recebem atendimento, como garantido em lei. O painel ficará na sala principal e terá uma montagem com fotos da época, como se fosse uma grande radiografia.

Três perguntas para

Siron Franco, artista plástico

Qual é o seu envolvimento com o césio?
Cresci na Rua 74, defronte à 57. Em 1987, estava morando em São Paulo quando os meus amigos me ligaram pedindo ajuda porque estavam sofrendo muito. Reuni um grupo de artistas, jornalistas e fui para lá. Era importante mostrar que aquilo era gravíssimo, mas que não precisava ser tratado com preconceito. As pessoas da região estavam sendo massacradas. Foi aí que tive a ideia de fazer uma exposição, pintando com a terra goiana, para mostrar que não era uma cidade contaminada. Viajamos o mundo. Foi meio que um surto, uma resposta àquela crueldade. E teve muita gente que teve medo de ir à exposição, me achando maluco de levar aquela ;terra contaminada;.

Você teve medo de se contaminar?
Depois de muito tempo, eu pensei: ;Que maluco eu fui;. Se fosse em outro bairro, também reagiria assim? Eu fui chamado por amigos desesperados, mulheres histéricas, que não tinham como sair de lá. Nem pensei em contaminação. Fiquei defendendo-os e, por sorte, não me contaminei, porque fiquei muito próximo. Arrumamos um contador de radiação para ir com os lixeiros aos locais. Era muito difícil para eles entenderem. Quando você lida com a água, você vê; com fogo, você vê; a radiação é invisível.

Por que é importante lembrar essa história?
Esquecer é triste. A humanidade só melhorou com os erros. No Brasil, não damos a menor bola para a história, não cultivamos a memória. Não construímos uma nação. Isso tem de ser uma alerta para que não aconteça novamente. Quem é que sabe como anda o índice de fiscalização? A nação é mais do que soja. É escola, é educação. E a educação gera o cidadão. Sem educação, a gente cai na barbárie.

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