Uma cidade para o césio

Uma cidade para o césio

postado em 07/09/2017 00:00

A história de Abadia de Goiás se confunde com o maior acidente radioativo em área urbana do mundo. Tanto que a bandeira da cidade, emancipada em 1995, é a única no mundo marcada pelo símbolo da radioatividade. O ícone aparece na insígnia, separada da imagem de um boi por outra de uma rodovia, em um fundo em vermelho e branco. Dessa forma, o município de 8 mil habitantes, localizado a 20km de Goiânia, assume a responsabilidade pelas mais de 13 toneladas de lixo contaminado pelo césio 137. Para isso, recebe R$ 70 mil anuais do governo federal, ou seja, R$ 5,8 mil mensais, o mesmo valor há mais de 10 anos.

A região começou a receber o rejeitos em 29 de setembro de 1987, 16 dias após o acidente. À época, houve resistência e protesto da população do então povoado. Com o passar do tempo, a população entendeu que não havia riscos. Como contrapartida às condenações pela tragédia, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) construiu o depósito definitivo no Parque Estadual Telma Ortegal, reserva ambiental distante cerca de 1km do centro do município e às margens da BR-060.

Lá, ficam os 10 contêineres marítimos usados para abrigar o material radioativo, enterrados em dois pontos diferentes dos 32 alqueires do parque. Os espaços são cercados com placas de concreto de até 25cm de espessura. Dentro deles, há 1,3 mil caixas e 4,2 mil tambores (veja Abaixo da terra). A estimativa dos especialistas é de que o material representará risco ao meio ambiente por 300 anos.

No parque, também ficam os prédios da Cnen. Os técnicos da comissão, vinculada à Diretoria de Pesquisa e Desenvolvimento, são obrigados a monitorar o local constantemente. ;Ficamos atentos a planos emergenciais, à segurança e às condições físicas do depósito. Coletamos amostras de água em até nove pontos específicos;, conta Rugles César Barbosa, servidor do Cnen e coordenador do Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO), no Parque Telma Ortegal.

A inauguração do CRCN-CO ocorreu em 2005, cinco anos após ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público Federal em Goiás (MPF/GO). Desde então, mais de 40 mil pessoas assistiram a palestras e andaram sobre o monte que se formou com o depósito do lixo atômico. A maioria é criança e adolescente, estudantes dos ensinos fundamental e médio. ;Desenvolvemos pesquisas, como da água em termos radiológicos, em um convênio com a Companhia Saneamento Goiás (Saneago), e também programas de mamografia. Tudo como contrapartida ao acidente;, conclui Rugles.

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