Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 07/09/2017 00:00
O mistério do dinheiro

A foto estampada na capa da edição de ontem do Correio parece uma cena das narrativas de Ali Babá e os 40 ladrões atualizada para os tempos pós-modernos e pós-humanos. Ou sugere que o dono é alguém com a mania do Tio Patinhas, que amealhava uma fortuna só para mergulhar e sentir de mais perto o cheiro das verdinhas.

Os maços de notas saltam das malas e das caixas. Era dinheiro saindo pelo ladrão. Impossível fazer uma aferição manual. A Polícia Federal teve de providenciar uma máquina de cassino e virar a noite para contar a grana. Ao fim de 14 horas de trabalho árduo, a PF contabilizou a bagatela de R$ 51 milhões e uns quebrados. É uma apreensão que entrou para o Livro dos Recordes.

Quem seria o Tio Patinhas a nadar na imaginária piscina de tanto dinheiro? Segundo a PF, existem indícios de que a grana pertence ao ex-ministro Geddel Vieira Lima. Um empresário baiano prestou depoimento e confirmou ter emprestado o apartamento para o ex-ministro. Mas ainda existem muitas lacunas a serem esclarecidas.

Sérgio Cabral surrupiou tanta propina que não cabia mais no bunker ou nos bunkers que ele havia contratado. Precisou reduzir e compactar o produto da rapinagem em uma coleção de joias. Enquanto isso, outras manchetes explodem nas telas e disputam espaço. ;Governo do Rio promete pagar salários atrasados daqui a 60 dias;. ;Lentidão da justiça estimula o crime;.

Cálculos realizados pelo site De real para realidade apontaram que, com a grana encontrada misteriosamente no apartamento, seria possível pagar 54.429 salários mínimos. Ou garantir as despesas de 600 mil brasileiros do Bolsa Família. E daria para bancar o salário de 22 mil professores do ensino médio que ganham o piso de R$ 2,3 mil. Ou para comprar 994 viaturas policiais. Ou, talvez, construir 1.020 casas populares.

O roubo de colarinho branco entrou no estado do delírio. E só a aplicação da lei é capaz de restituir o senso de realidade. Se estivéssemos no Japão, muitos políticos já teriam praticado haraquiri de vergonha. No entanto, nós estamos no Brasil. A consciência de nossa classe política é a Bangu 1 ou a Papuda.

E o mais surpreendente é que, com todo o desvario da rapinagem, alguns juízes ainda teimam em soltar e não em prender os larápios de colarinho branco pós-graduados e diplomados.

O pesadelo continua, mas o trágico é que não adianta acordar, tudo é real. Efetivamente, a Polícia Federal deve muitas explicações à sociedade brasileira.



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