Resistência reforçada

Resistência reforçada

Novas regras exigem Certificado de Registro no Exército, teto solar blindado e proibição de reparo em vidros delaminados

*Lucianna Rodrigues
postado em 07/09/2017 00:00
 (foto: Blindagem de Carros Trasco Bremen/Flickr)
(foto: Blindagem de Carros Trasco Bremen/Flickr)




Andar em carro blindado deixou de ser privilégio de autoridades e proprietários de grandes fortunas. A sensação de insegurança nas ruas do país tem levado um número cada vez maior de motoristas a buscar o serviço de blindagem de automóveis. O reforço na proteção é regulado pelo Exército Brasileiro, que recentemente publicou portaria com novas regras para o serviço no Brasil.

As principais mudanças exigem novas medidas e também novos preços. O consumidor vai precisar retirar o Certificado de Registro, arcar com a blindagem total no teto solar e a trocar todo o vidro caso ele sofra delaminação. Esses serviços vão acrescentar no mínimo mais 2 mil reais em todo o processo, que já varia entre R$20 mil e R$70 mil.

Com as novas regras, o Certificado de Registro deverá ser adquirido pelo proprietário do carro. Anteriormente, apenas a empresa blindadora precisava portar o documento e não havia a obrigatoriedade para o motorista, que agora vai precisar desembolsar 850 reais, se for pessoa física e 1.250 reais em caso de pessoa jurídica, para ter o CR em mãos.

De acordo com o Exército, o documento tem validade de três anos e para adquiri-lo é necessário responder a questionários, entregar documentos e o nada consta emitido na Justiça Federal, Militar e Criminal. Outra novidade é a criação do Sistema de Controle de Veículos Blindados e Blindagens Balísticas (Sicovab), que tem como função controlar a blindagem no Brasil. Além disso, permite que o mesmo proprietário tenha outros veículos blindados em seu nome e que apenas acrescente ao Certificado de Registro um novo automóvel sem que tenha que repetir todo o processo.

Os vidros também sofreram mudança com a portaria do Exército. Agora fica proibido reparar danos causados nos vidros e é necessário que o motorista os troque por completo. Para Amilzio Junior, diretor da Safety Car Blindagens, a única blindadora de Brasília, essa nova regra tem pontos positivos e negativos. ;Essa medida vai tornar mais cara a manutenção, uma vez que os vidros danificados, que antes poderiam ser recuperados por um custo menor, deverão ser substituídos. Porém, pensando na segurança do usuário do veículo blindado, considero um benefício, pois não haverá mais as conhecidas gambiarras que tanto encontramos por aí;, conta ele.

Ainda para Amilzo Júnior, muitas empresas que antes reparam vidros acabam colocando em risco toda a blindagem de um carro e vê a nova regra como algo bom para o consumidor. ;Existem muitas empresas recuperadoras que utilizam métodos de recuperação que diminuem a resistência balística do vidro. Seus interesses não visam à manutenção da segurança em primeiro lugar mas sim o preço mais baixo para captar o serviço. Para isso, utilizam produtos de reposição de baixa qualidade e até a remoção de alguns materiais balísticos para que o vidro volte a ser transparente de novo;, esclarece.

O teto solar entrou nas novas mudanças da portaria n;55. Agora, é necessário que o nível de blindagem seja o mesmo do restante do carro. Um carro blindado com nível IIIA, o mais usual e seguro do mercado, deverá ter obrigatoriamente o mes mo nível de blindagem no teto solar. O serviço deverá encarecer entre R$ 500 e R$ 1 mil, segundo Amilzo Júnior. Com a mudança, o teto solar deverá ser protegido como uma peça única, ou seja, perderá a função de abrir e fechar e será apenas panorâmico.





Mercado
A procura por segurança e o cuidado para se proteger da violência nas cidades, traz para o Brasil uma frota de aproximadamente 200 mil veículos blindados, segundo a Associação Brasileira de Blindagem (Abrablin). São Paulo é a capital que se destaca e que leva 65% dos carros blindados brasileiros. Os números são significados no cenário brasileiro. Ainda segundo a Abrablin, um levantamento feito por eles mostrou que até 2015 a blindagem cresceu 12% ao ano, já em 2016 caiu para 4%, o que em números são 19 mil carros blindados no último ano. Para o setor é uma quantia alta e representativa.

Para a associação, a adesão ao serviço segue um perfil específico de clientes que são da classe média e alta, variando entre pessoas física e jurídica com idade média de 55 anos. Além disso, a proporção entre homens e mulheres é bem equilibrada, 52%, homens e 48%, mulheres.

Já em Brasília, o mercado ainda não é amplo, mas vem crescendo. De acordo com Amilzio Junior, as blindagens sofreram com a crise financeira na capital, mas aos poucos voltaram para um bom cenário. ;Antes da crise financeira do país, a procura em Brasília estava aumentando aproximadamente 15% ao ano. Com a crise, a partir de 2015, a procura caiu, acredito que influenciada pela falta de dinheiro no mercado. Vemos uma crescente procura do consumidor brasiliense que começa a acreditar que Brasília é uma cidade violenta, como as grandes cidades do país;, diz.

Para a universitária Gabriela Borges (nome fictício), 22 anos, o carro blindado oferece uma sensação de segurança, apesar disso não ser a solução para o quesito violência. ;Quando estou dentro do carro me sinto segura, porque sei do nível de proteção do meu carro, mas infelizmente não posso ficar dentro dele o tempo todo e isso não é a solução para todos os problemas. Andar na rua e saber que posso ser surpreendida com alguma situação de perigo me apavora, por isso tento amenizar esse sentimento quando estou dentro do carro, onde me sinto mais protegida. Esse foi o principal motivo da minha escolha;, conta ela, que tem carro blindado há quatro anos.

De revólver a fuzil
Os diferentes níveis de blindagem determinam de quais munições o veículo estará protegido em caso de ataque. No Brasil, o nível mais utilizado é o IIIA, que oferece proteção contra disparos de armas curtas até submetralhadoras. Isso abrange os revólveres .22,.38, a pistola de calibre 9mm, Magnum.357 e Magnum.44. Porém, adquirir a proteção mais alta, tem um peso: cerca de 50 mil reais e 150kg a mais no veículo.

* Estagiária sob supervisão de Taís Braga






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