Que placa eu olho?

Que placa eu olho?

Herdada da Copa, sinalização não segue Plano Diretor de Sinalização e precisará ser adaptada. Especialistas criticam manutenção

» Daniel Marques Vieira* * Estagiário sob supervisão de José Carlos Vieira
postado em 12/09/2017 00:00
 (foto: Bárbara Cabral/Esp.CB/D.A. Press)
(foto: Bárbara Cabral/Esp.CB/D.A. Press)


Pelo Plano Piloto, uma situação curiosa chama a atenção dos brasilienses: em algumas regiões da cidade, surgem placas que destoam do Plano Diretor de Sinalização do Distrito Federal. Para piorar, concorrem lado a lado com placas de endereço tradicionais e reconhecidas internacionalmente. Em alguns casos, uma placa repete a informação da outra, isso a uma distância de poucos metros.

Segundo o diretor-geral do Departamento de Estradas de Rodagem do Distrito Federal (DER), Henrique Luduvice, foram instalados 63 pórticos e semipórticos como parte do Programa Paz no Trânsito. ;Apesar de ser lembrado pelas faixas de pedestre, esse programa também teve outras funções, entre elas, a sinalização;, afirmou o diretor.

Posteriormente, por meio de nota, a assessoria de imprensa do órgão afirmou que não há pórticos instalados na área tombada de Brasília, e que os semipórticos existentes ali são fruto do reaproveitamento das placas instaladas para a Copa do Mundo de 2014. Mas é estranho para o brasiliense ver duas placas em formatos diferentes darem a mesma informação uma próxima da outra.

A duplicidade chama atenção de arquitetos, preocupados com a inadequação da sinalização com o Plano Diretor de Sinalização, instituído por decreto em 1998. O projeto define os detalhes da sinalização do Plano Piloto, desde a tipografia até as cores e os materiais utilizados. ;Toda sinalização urbana de Brasília segue um projeto que foi reconhecido pela ONU, premiado mundialmente;, explica Frederico Flósculo, professor de arquitetura na UnB. ;É uma coisa muito séria, que não é simplesmente invenção de algum qualquer. O governo precisa respeitar;, pontua, acrescentando que o modelo de sinalização garante visibilidade e segurança ao motorista. Para ele, a adição de novas placas, com um padrão diferente, fere o projeto de comunicação visual da cidade.

Henrique Ludovice, do DER, defende que uma nova sinalização é necessária, devido às mudanças recentes na configuração do trânsito da cidade. ;Hoje, carros mais altos, como os SUVs, dificultam a visualização das placas laterais;, justifica. O diretor acrescenta que os pórticos e semipórticos permitem ao motorista conseguir tomar decisões a certa distância sem gerar congestionamentos ou acidentes. O professor Flósculo discorda. ;Esse é um argumento tolo. Essas placas tradicionais sempre foram visíveis. Foram pensadas para isso. São extraordinárias. Essa quebra de continuidade é uma coisa lamentável.;

O Correio foi conferir a opinião de quem é mais afetado pela sinalização das vias: os motoristas. No Eixão, próximo ao Setor Comercial Sul, a duplicidade é bastante evidente. No semáforo logo em frente, conversamos com quatro motoristas e nenhum sequer tinha notado a presença do semipórtico. Guilherme Álvares, 38 anos, olhando pra trás para checar se a placa aérea realmente existia, afirmou: ;É um custo desnecessário manter essa placa aí se já tem a de baixo;. Cláudio dos Reis, 50 anos, que também afirmou não ter se atentado à sinalização de cima, acrescentou: ;A placa de baixo é muito mais visível. Para quem está de carro, olhar para a placa de cima é até mais complicado;.

Porém Ludovice garante: o órgão possui grande consideração e respeito pela icônica sinalização de Brasília e não vai retirá-la, mas somente fazer adaptações na disposição e no posicionamento. ;Onde houver conflito com a sinalização, será priorizada a placa tombada, mas sempre se preocupando com a segurança do motorista.;

O Correio conversou com Antonio Danilo Morais Barbosa, arquiteto e urbanista responsável pela coordenação do Plano Diretor de Sinalização do Distrito Federal. Na opinião do arquiteto, o correto é que, nas regiões centrais de Brasília, deva permanecer, sem modificações ou adições, a sinalização original. Contudo, o especialista assume que, nas pontas dos eixos, onde há um sistema de trânsito mais complexo, talvez seja necessária a adaptação da sinalização. Ressaltou ainda que o DER o tem consultado antes de fazer adaptações na sinalização. ;Não se pretende substituir. O DER vai dar continuidade ao plano de sinalização e está preocupado com a sobreposição;, ressalta o professor. E ele garante: até a semana que vem, será realizada uma avaliação em todo Distrito Federal, analisando onde é necessário fazer adaptações. Barbosa defende que, em alguns casos, os pórticos precisarão ser retirados, ou serem adaptados para o Plano Diretor.

Por meio de nota, a assessoria do DER acrescenta que ;não há data final para conclusão dos serviços, tendo em vista a complexidade e a quantidade de placas e semi-pórticos espalhados pela cidade. Em fase seguinte, serão substituídas ou implantadas novas placas, totens e sinalização de pedestres em toda a área tombada;.

Balizadores

Outro elemento do trânsito que vem se tornando evidente aos brasilienses são os balizadores, chamados popularmente de ;palitos;, ;curralizinhos; ou ;pirulitos;. Adicionados aos poucos em diferentes rodovias, a ferramenta de sinalização direciona o trânsito em acessos e retornos. Estão presentes, por exemplo, na entrada do Guará 1, via EPTG, nos retornos da EPIA (entre o ParkShopping e o CasaPark), e no acesso da EPIG via EPIA.

A ferramenta divide a opinião dos motoristas. Enquanto o brasiliense João Dias, 40 anos, alega que atrapalha o trânsito e diz que ;é o cúmulo do absurdo!”, Gabriel de Melo, morador do Gama, adota um tom mais ameno e demonstra uma opinião mais branda. Segundo ele, a ferramenta diminui o risco de acidentes e agiliza o trânsito. ;Evita que os ;espertinhos; entrem na frente de todo mundo lá no fim do retorno.;
Sobre os balizadores, o diretor-geral do DER defende que a medida só foi tomada em pontos críticos de congestionamento. ;É uma ferramenta de disciplinarização do tráfego;, explica.

Entenda

Pórticos e semipórticos: sinalização aérea, com pilares, vigas metálicas e placas na parte superior.






R$ 11.189.512,49

Valor gasto a partir de junho do ano
passado na instalação de pórticos e
semipórticos nas rodovias do DF




PARA SABER MAIS
Placas tombadas?

Por meio de nota, a assessoria de comunicação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Ip

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