Alerta para o mal de Alzheimer

Alerta para o mal de Alzheimer

Um dos fatores de risco da doença, o envelhecimento crescente da população preocupa médicos no DF, que temem aumento substancial de casos. Faltam mecanismos de controle na rede pública e acompanhamento dos pacientes é falho

» OTÁVIO AUGUSTO
postado em 17/09/2017 00:00
 (foto: 
Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press

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(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press )

A memória funciona como uma corrente. As pessoas se lembram de alguns elos e se esquecem de outros. A diferença, para os pacientes diagnosticados com Alzheimer, é a frequência com que os elos se rompem. Na capital federal, a tendência de aumento dessa doença neurodegenerativa é motivo de alerta para médicos. Alguns consideram que o mal é uma epidemia anunciada. A explicação está numa característica populacional que chama a atenção: o DF tem cada vez mais idosos. E a idade é um dos fatores de risco para a enfermidade. A estimativa é que os diagnósticos tripliquem, até 2050.

A Academia Brasileira de Neurologia (ABN) avalia que o Alzheimer afeta 7,2% da população idosa. Em algumas capitais, como Brasília, o índice chega a 14%. Aos 60 anos, apenas 2% das pessoas têm a doença. A partir dessa idade, essa prevalência dobra aproximadamente a cada sete anos, a tal ponto que, aos 80 anos, 30% dos indivíduos tenham a doença e, aos 90, 50% a desenvolvam. Os dados serão lembrados na próxima quinta, 21 de setembro, Dia Mundial do Alzheimer, criado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para esclarecer e conscientizar as populações sobre o mal.

A preocupação dos médicos brasilienses fica ainda mais evidente ao analisar os gráficos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É que o índice de envelhecimento, ou seja, o número de pessoas de 60 ou mais, para cada grupo de 100 pessoas jovens de 15 anos de idade, está aumentando (veja Escalada crescente). Atualmente, 6,81% da população da capital tem 65 anos ou mais. Há 10 anos, em 2007, eram 4,2%. Daqui a 13 anos, em 2030, segundo projeção do IBGE, esse número pode chegar a 11,68% da população.

A diretora científica de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), Jerusa Smid, analisou o quadro da doença no DF a pedido do Correio. Para a especialista, o Alzheimer deve ser uma preocupação de saúde pública. ;A população está envelhecendo e não se tem articulação de serviço público para prevenção e atenção desses pacientes;, afirma.

Jerusa tem razão. No Brasil, há falhas de informação e de registro de boa qualidade sobre dados de demências. O DF segue a mesma regra. A Secretaria de Saúde não dispõe de nenhum mecanismo que monitore a doença. ;Os gastos com Alzheimer vão aumentar bastante, mas como fazer esse dimensionamento se as autoridades públicas não acompanham os casos?;, critica.

Equilibrar a oferta de serviços e a demanda é um cálculo delicado. Hoje, são cerca de 207 mil pessoas com mais de 65 anos ; em 2030, serão 440 mil. Contudo, há apenas 16 geriatras atendendo na rede pública, segundo a Secretaria de Saúde. Em média, há um profissional para cada 12,9 mil idosos. O Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza três medicamentos para o tratamento do Alzheimer. Mas apenas 11 das 31 regiões administrativas contam com ambulatórios de geriatria. ;Não estamos preparados para enfrentar essa nova realidade;, pondera Jerusa.

A Secretaria de Saúde admite que o quadro de geriatras é insuficiente, mas destaca que aposta em equipes com médicos de várias especialidades, como neurologistas e a psiquiatras, para tratar os pacientes com demência. ;Os geriatras estão distribuídos de forma que toda regional de saúde tenha cobertura de pelo menos um profissional;, explica a pasta, em nota. O texto oficial acrescenta que ;o atendimento do paciente com demência e de sua família não se resume ao tratamento médico, mas sim ao acompanhamento por uma equipe interdisciplinar;.

A população está envelhecendo e não se tem articulação de serviço público para prevenção e atenção desses pacientes;

Jerusa Smid, diretora da Academia Brasileira de Neurologia


Mudança

As mais recentes estatísticas populacionais da capital federal revelam como o perfil dos habitantes dos moradores da cidade tem mudado. Enquanto a população idosa cresce a passos largos, o número de jovens tem diminuído consideravelmente. Hoje, eles representam 32,5%. Daqui a cinco anos, em 2022, eles serão 28,8%. Em 2030, essa parcela da sociedade representará 25,5% da população do DF.

Sinais de alerta

Os pacientes afetados pelo mal de Alzheimer normalmente têm perda de memória, problemas com tarefas familiares, confusão com tempo e localização, mudança na personalidade, dificuldade para solucionar problemas, confusão com imagens e espaços, dificuldade com palavras, julgamento empobrecido, abandono de atividades sociais e perda de objetos.

Escalada crescente
Índice de envelhecimento em ascensão no DF *

2016 31,09

2017 33,29

2018 35,56

2020 40,23

2025 52,68

2030 68,07

* Índice de envelhecimento, ou seja, de pessoas com 60 ou mais, por grupo de 100 pessoas menores de 15 anos de idade.

Fonte: IBGE


Para saber mais
Poucas
certezas

Ainda há dúvidas sobre as causas do Alzheimer. Uma das certezas é que a genética é um dos fatores influenciadores. O sistema nervoso central produz uma proteína chamada apolipoproteína E (ApoE). Essa proteína tem algumas subformas, e a presença do alelo E4 do gene da apolipoproteína E (ApoE4) é considerada fator de risco elevado para o desenvolvimento da doença. Outros fatores, além da idade, são a presença de radicais livres (chamado stress oxidativo), diabetes, traumatismos cerebrais e elevação da homocisteína, um aminoácido presente no sangue que está relacionado com o surgimento de doenças cardiovasculares. No mal de Alzheimer, há uma redução importante do neurotransmissor acetilcolina.

Três perguntas para
Otávio Castello
Diretor científico da Associação Brasileira de Alzheimer

Por que os casos estão cada vez mais frequentes?
Em mais da metade dos casos, o fator de risco é a idade. Se eliminarmos os casos genéticos, eles representam apenas 7%. A cada sete anos, a partir dos 60 anos, dobra-se a probabilidade dos casos. Esse fator não tem como eliminar, a cidade está ficando cada vez mais velha. O Alzheimer é a mais comum, mas temos que ter atenção com todas as demências. A velocidade do envelhecimento populacional é muito maior em países em desenvolvimento. Mesmo para os fatores modificáveis, temos que ter políticas públicas mais eficazes.

Embora não exista cura,
há tratamento?
A doença é pouco conhecida até mesmo no meio médico. A maior parcela dos pacientes não é diagnosticada na fase i

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