Paulo Pestana

Paulo Pestana

por Paulo Pestana Especial para o Correio - papestana@uol.com.br
postado em 17/09/2017 00:00




Nóis vai ou fica?

No lançamento do filme A lei é para todos, os produtores expuseram uma montanha de dinheiro no centro de Curitiba, para chamar a atenção sobre o prejuízo causado ao país com os crimes de colarinho branco. Era uma alegoria. O dinheiro era falso e a instalação era uma forma de indignar quem passava e via as seis colunas de quatro metros de altura.

Um dia depois da estreia nacional do filme, a realidade mostrava sua cara mais feia, na forma de dinheiro (verdadeiro, vivo, imundo) displicentemente colocado em caixas de papelão e malas, jogadas no chão da sala de um apartamento em Salvador. A quantia era bem menor (R$ 51 milhões), mas o impacto foi significativamente maior.

A imagem das notas largadas, mas cheias de digitais, mostrando que foram acariciadas por dedos ávidos, engordurados de safadeza e untados pela rapinagem, não sai da cabeça dos brasileiros. Qual é o limite do Brasil? Até onde é possível espoliar um país? É possível ser otimista diante de um cenário como este? Como sair dessa barafunda?

A trilha sonora para a estática imagem do dinheiro aparecera dois dias antes na forma de estarrecedores diálogos de dois finórios que meses atrás eram apontados como empresários-modelo, exemplos da pujança brasileira como maiores produtores de proteína animal do planeta. Falazes, ouviam Ivete Sangalo cantar enquanto dividiam confidências ; ;acho que vou comer umas duas velhinhas de 50. Casadinhas;.


Os escândalos se sucedem com uma velocidade tão impressionante que poucos ainda se lembram de que apenas um gerente da Petrobras devolveu espontaneamente mais de US$ 100 milhões amealhados em caliginosas operações


O então poderoso chefão ; revelado um mafioso de ópera bufa ; tinha até um plano para chantagear a bela esposa, que ele tirou da tevê. Diria que iria pedir o divórcio por não a merecer; quando a moça se apiedasse, contaria os fatos putrefatos que sairiam no jornal. Tudo recheado de palavras de baixo calão, erros de concordância, nenhuma decência.

Aqui, os escândalos se sucedem com uma velocidade tão impressionante que poucos ainda se lembram de que apenas um gerente da Petrobras devolveu espontaneamente mais de US$ 100 milhões amealhados em caliginosas operações. Menos ainda se lembram da chuva de dinheiro que caiu em Recife, quando a polícia bateu nas imponentes Torres Gêmeas. É, literalmente, dinheiro saindo pelo ladrão.

O país do ;nóis não vai; é o mesmo país do ;menas laranja;, do ;anarfa;, como ressaltava aquele não mais tão ilustre presidente. Lá atrás, Aristóteles vaticinava que a democracia é o governo nas mãos de homens de baixa extração, sem posses e com empregos vulgares. Isso, mais de 300 anos antes do nascimento de Cristo; e talvez só por isso ele não tivesse como saber que, abaixo dos trópicos e num mundo novo, seria muito pior.

A saída para o impasse pode estar na ação da Justiça. Mas não dessa Justiça que temos hoje, policialesca, burocrática, permissiva ou lerda ; algumas vezes tudo isso junto. Mas quem vai promover essa reforma judiciária? Quem convocaria um grupo de notáveis para mudar os sistemas político e judiciário do país? Temos notáveis? Não custa lembrar Woodrow Wilson, 28; presidente norte-americano: ;O fato de um camponês poder se tornar rei não torna esse reino democrático;.



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