Constantemente em alerta

Constantemente em alerta

postado em 17/09/2017 00:00
 (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

A psicóloga do Hospital Sírio-Libanês Ana Brunetto Tancredi afirma que, atualmente, evidências científicas apontam para uma etiologia da ansiedade que envolve aspectos biológicos e socioculturais e determinam padrões comportamentais nas nossas respostas a ameaças.

Há indícios do envolvimento dos neurotransmissores e de estruturas neurobiológicas nos transtornos de ansiedade, haja vista que esses respondem muito bem ao tratamento feito com medicamentos antidepressivos. Para além da dimensão orgânica, podemos pensar, alerta a profissional, que estamos inseridos em uma sociedade com padrões culturais que demandam e exigem bom desempenho e alta performance. ;Dessa forma, pode-se pensar que estamos nos deparando com situações ameaçadoras ou de risco a todo momento, o que exige de nós um estado de alerta constante.;

A fisioterapeuta especializada em estresse pós-traumático através do corpo Patrícia Shimata Kikuchi atribui a maior parte do aumento nos casos de TAG ao grande volume de informações ao qual estamos expostos diariamente. ;Hoje, as pessoas têm acesso muito rápido às informações, e a mente não consegue processar tudo isso corretamente ou acomodar as emoções causadas. Antes de olhar para uma fato, processar e resolver, o indivíduo já foi bombardeado com diversos outros elementos;, esclarece.

A maioria dos especialistas questionados afirma ainda que o alto nível de cobrança que as pessoas enfrentam em suas vidas pessoais e profissionais também funciona como um gatilho para o desenvolvimento do TAG, bem como outros distúrbios psiquiátricos ou físicos.

O servidor público Alexandre Delgado da Silva, 43 anos, foi uma das pessoas que desenvolveram o TAG a partir de uma frustração relacionada ao trabalho e à condição financeira. ;Não era uma dificuldade em si, mas percebi que ainda ia demorar para que chegasse à condição que queria. Comecei a ficar ansioso.;

Alexandre sofre de insônia há muitos anos, porém, nunca tinha associado o problema ao TAG. Na virada do ano passado, ele percebeu o início de um tique nervoso no olho. As piscadas involuntárias logo se tornaram crônicas e viraram um inconveniente na vida do servidor.

Depois de um período de automedicação, Alexandre optou por buscar auxílio médico. Foi a um neurologista e a um psiquiatra. O primeiro descartou causas fisiológicas e o segundo detectou e diagnosticou o TAG. Assim, Alexandre iniciou um tratamento com medicamentos alopáticos para tratar o tique ; motivo de incômodo constante ; e começou a fazer terapia para buscar as causas da ansiedade e tentar minorar seus efeitos físicos. ;Não tinha pensado que poderia ser ansiedade, pois eu não tinha outros sintomas. Meu corpo, porém, buscou uma forma para expressar aquilo e, hoje, faço terapia para tentar eliminar as causas dessa ansiedade;, afirma.

O servidor acrescenta que o processo de cura é lento. Após o início dos remédios, teve 90% dos sintomas físicos controlados. O tique no olho se transferiu para momentos de irregularidade na respiração. Ele acredita ainda que a situação do país, que traz sensação de incerteza e insegurança para grande parte da população, pode ser uma das causas do aumento de TAG e uma explicação para a liderança do país na pesquisa da OMS.

Autocobrança

O sentimento de cobrança foi o que levou a servidora pública Simone de Fátima Motta Soares, 49 anos, a manifestar crises de ansiedade. ;Sempre soube que tinha uma tendência a ser ansiosa demais, mas, depois que fui mãe, queria ser perfeita. Queria dar conta de todas as responsabilidades, trabalho, casa, filhos, marido;, explica. Há cerca de cinco anos, a autoexigência trouxe insônia, irritabilidade, mudanças de humor, aperto no peito e sensação de nunca dar conta de nada. Simone descobriu ter TAG e começou um tratamento medicamentoso e psicológico. ;Foi muito bom. Comecei a resolver meus problemas sem aquele aperto no peito, sem fadiga;, lembra.

Preocupada com o aumento no número de casos de ansiedade, Simone afirma que o motivo pelo qual aceitou participar desta reportagem foi ajudar pessoas com o mesmo problema. ;Quando percebemos que tem algo errado, é importante buscar socorro. As pessoas ainda têm muita resistência e preconceito. Rotulam os que vão ao psiquiatra, mas trata-se de uma especialidade médica como qualquer outra, que ajuda a curar doenças;, ressalta. Simone ainda faz uso de remédios e se mantém firme na terapia. ;Hoje, minha frequência com os medicamentos diminuiu e, em breve, espero poder ficar bem sem eles.;

Nesse contexto, é imprescindível ressaltar que o transtorno de ansiedade generalizada não é um problema sem solução. ;Recomenda-se, idealmente, uma abordagem multifacetada. De um lado, o uso de medicamentos antidepressivos sob supervisão de médico psiquiatra. De outro, o tratamento psicológico, que ajuda a pessoa a construir formas de suavizar o sofrimento e a progressão da crise;, pondera a psicóloga Ana Brunetto Tancredi. O aprendizado de técnicas de relaxamento mental também pode ajudar .

Infância sobrecarregada


Tratando pacientes com TAG há 40 anos, o médico Alexander Saliba, clínico geral e pediatra especialista em homeopatia, preocupa-se com o aumento no número de casos, principalmente em pacientes cada vez mais jovens. ;Já tratei criança de 4 anos que roía as unhas por causa da ansiedade. Mas o que causa isso nas crianças, se elas, supostamente, não têm preocupações? O excesso de informações, de computador e de jogos angustiantes está entre os maiores culpados;, afirma.


O especialista garante ainda que o número cada vez maior de responsabilidades impostas aos pequenos, como diversas aulas, excesso de estudos e ausência de tempo livre podem contribuir para o surgimento de um quadro de ansiedade. A cobrança dos familiares com relação a essas atividades e ao sucesso também são gatilhos. Problemas de estômago, como gastrites e oscilações de apetite, irritabilidade e isolamento são alguns dos sintomas que as crianças apresentam com mais frequência.


Os profissionais da saúde tendem a adiar ao máximo, ou mesmo eliminar, a necessidade do uso de alopáticos. Alexander, por exemplo, procura tratar as causas da ansiedade por meio de medicamentos homeopáticos e por indicação de terapia. Para o psiquiatra Victor Soares, as crianças respondem muito mais à psicoterapia, normalmente o primeiro tratamento indicado. A equipe tenta ainda identificar e eliminar fatores ambientais que possam agravar o caso. ;Só usamos o medicamento alopático em último caso, mas,

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