Independência da Catalunha põe a Espanha em guerra

Independência da Catalunha põe a Espanha em guerra

Resultados preliminares indicam que 90% dos catalães votaram a favor da separação absoluta da Espanha. Referendo considerado ilegal por Madri ocorreu sob forte repressão, com 844 feridos. Presidente da região autônoma espera formalizar o divórcio nas próximas horas

Rodrigo Craveiro
postado em 02/10/2017 00:00
 (foto: Pau Barrena/AFP)
(foto: Pau Barrena/AFP)






A sede de democracia e de liberdade não foi abafada, apesar dos 844 feridos durante confrontos com a polícia e do desprezo do governo espanhol, que fez questão de ignorar o referendo sobre a independência da Catalunha. Por volta de 0h40 de hoje (19h40 de ontem, em Brasília), os resultados preliminares indicavam que, com 2,26 milhões de votos apurados, 90% dos catalães ; ou 2,02 milhões ; votaram a favor da separação da Espanha. No fim da noite, milhares deles se reuniram na Plaza Catalunya, em Barcelona, e cantaram L;Estaca, uma espécie de hino contra a ditadura do general Francisco Franco (1936-1975). ;Siset, não vês a estaca à qual estamos todos atados? Se não conseguirmos nos desatar, nunca poderemos caminhar;, afirma a letra. Era um grito de desafio contra Madri, horas depois de a Polícia Nacional espanhola invadir seções eleitorais, golpear cidadãos com cassetetes e disparar balas de borracha para impedir a consulta popular.

;Com esta jornada de esperança e de sofrimento, nós, cidadãos da Catalunha, ganhamos o direito de ter um Estado independente, que se constitua em forma de república;, afirmou, acompanhado do gabinete, o presidente catalão, Carles Puigdemont. Ele avisou à União Europeia (UE) que o bloco ;não pode mais continuar olhando para o outro lado;. De acordo com Puigdemont, o Parlamento da região deverá declarar formalmente a independência nos próximos dias ; o artigo 4.4 da Lei do Referendo determina que isso ocorra em até 48 horas. Na quarta-feira, o Parlamento realiza uma sessão plena, durante a qual existe a expectativa da formalização. Amanhã, grandes sindicatos e organizações sociais comandarão uma greve geral em repúdio à truculência policial.

Antes mesmo da divulgação dos primeiros resultados, o premiê da Espanha, Mariano Rajoy, fez questão de desqualifcar o processo democrático, que havia sido proibido pelo Tribunal Constitucional, e de justificar a violência. ;Fizemos o que tínhamos de fazer. Não houve referendo de autodeterminação na Catalunha. O Estado de direito mantém sua vigência;, declarou. O chefe de governo convocou todos os partidos a traçarem um plano que garanta o ;restabelecimento da normalidade institucional;.

Sem diálogo
Josep Lluís Salvadó i Tenesa, secretário de Fazenda da Catalunha, afirmou ao Correio que a região autônoma começou a jornada rumo à República Catalã. ;Não esperamos uma reação da Espanha. Madri tem sido incapaz de dialogar. Isso não ocorreu em nenhuma das 22 independências que os espanhóis sofreram em sua história;, comentou. ;Esperamos que a Europa reaja. Somos cidadãos da UE e ansiamos que Bruxelas nos proteja da violência do Estado espanhol.; Lluís admite que o processo ;não será fácil;. ;Depois do que o governo da Espanha fez, somente formaremos parte da Espanha por meio da força bruta.; Para ele, a ânsia de independência não se explica pela questão econômica, mas de ;cultura política, qualidade democrática e dignidade de um povo;.

O sociólogo Salvador Cardús, da Universidad Autónoma de Barcelona (UAB), prevê a aceleração do processo independentista. ;Amanhã (hoje), haverá um grande conflito na política espanhola pela atuação da polícia. A semana será de repressão aos líderes e às instituições catalãs.; O especialista alerta não haver ponto de retorno para a assinatura de acordos. ;Qualquer pacto futuro será entre a Espanha e uma Catalunha independente;, observou. Cardús classificou de ;terríveis; as condições do referendo e relatou que compareceu a uma seção eleitoral às 4h30 para assegurar que o local não seria invadido. ;Criou-se o medo. A polícia atacou o sistema de informática para dificultar o voto. O resultado é excepcionalmente muito alto e serve para a independência seguir adiante.;

A Polícia Nacional confiscou urnas e espancou catalães que tentavam proteger o material de votação. A imagem de uma idosa ensanguentada, no Colégio Freire, em Barcelona, causou comoção nas redes sociais. A comunidade internacional reagiu com incredulidade. O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, disse que Rajoy ;tem que responder ao mundo pelo que fez;. ;Apareceu a repressão, brutal, realmente brutal, porque, se um povo está em paz e tranquilo, deixem-no em paz.;




Três perguntas para

Ana;s Franquesa Griso, diretora de Litígio da ONG Irídia, Centro pela Defesa dos Direitos Humanos

Como a senhora avalia a reação das forças de segurança para impedir o referendo?
A situação vivenciada hoje (ontem) na Catalunha é muito grave. Centenas de pessoas ficaram feridas em batidas policiais indiscriminadas. Elas estavam nas portas de colégios eleitorais para exercer o direito ao voto e foram duramente golpeadas com bastões e murros, empurrões e disparos de balas de borracha. Várias mulheres relataram que, além dos golpes, foram agredidas sexualmente, com toques e outros tipos de humilhações.

O que pretendem fazer para apoiar as vítimas de agressões policiais?
A campanha #SomosDefensoras agrupa várias entidades de direitos humanos, as quais ativaram um dispositivo de observadores que se espalharam o dia todo por Barcelona para reportar todo o tipo de violações dos direitos. Nossa equipe psicossocial fez intervenções em vários pontos da cidade, atendendo a pessoas muito afetadas, com ataques de pânico e ansiedade.

Vocês têm a intenção de processar o Estado da Espanha?
As entidades de direitos humanos passaram o dia monitorando as violações. Estamos produzindo um informe, o qual será entregue a organismos nacionais e internacionais, como as Nações Unidas, o Conselho Europeu e a União Europeia. Em casos concretos e muito graves, tomaremos as ações judiciais cabíveis. (RC)




Vozes catalãs

;Estou triste pela reação agressiva da polícia espanhola. Vi catalães agredidos, apesar de manifestarem em paz. É um erro do governo, o qual jamais será esquecido. O futuro? Creio que temos de seguir tentando dialogar. As coisas não serão iguais, como foram até hoje.;

Joaquim Amaré, 61 anos, morador de Tortosa, a 200km de Barcelona


;Toda essa repressão foi um horror. A polícia estava perseguindo todas as pessoas que tentavam votar. Apenas estávamos lutando para poder votar. O simbolismo do referendo de hoje (ontem) é que somos um povo unido, o qual luta pela liberdade.;

Cristina Espadas Martín

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