Vapor elétrico

Vapor elétrico

Pesquisadores norte-americanos criam máquina que gera eletricidade a partir da evaporação da água. O mecanismo funciona a partir da contração e da expansão de esporos bacterianos presentes em uma placa de plástico

Vilhena Soares
postado em 02/10/2017 00:00
A água está presente em cerca de 71% da superfície do planeta, e aproximadamente 97% desse volume está nos oceanos. Esse imenso arsenal pode ser usado para gerar energia de uma forma aparentemente inusitada e limpa, segundo pesquisadores americanos. Cientistas da Universidade de Columbia desenvolveram uma tecnologia que consegue gerar eletricidade pela evaporação da água. Segundo os criadores, o método poderá ser adotado principalmente em países que têm clima mais quente, como o Brasil. Detalhes do funcionamento da solução foram divulgados na revista britânica Nature Communications.

Para o projeto, a equipe criou uma máquina que levou o nome de mecanismo de evaporação. O aparelho tem a forma de um quadrado, é feito de plástico e contém pequenas placas repletas de esporos bacterianos chamadas obturadores. Os pesquisadores escolheram os esporos bacterianos devido a uma propriedade específica dessas pequenas substâncias: elas se mantêm em tamanho reduzido quando secas (semelhante a uma uva passa) e se expandem quando entram em contato com a água.

Quando a água presente na base do aparelho começa a evaporar, os esporos bacterianos se contraem, fazendo com que os obturadores abram e fechem, gerando energia, que é transferida para um gerador acoplado no aparelho para a produção da eletricidade. Os testes em laboratório renderam resultados bastante animadores tanto com o protótipo, quanto com outros aparelhos criados seguindo o mesmo mecanismo, mas com formas distintas.

Os resultados promissores animaram a equipe, que começa a trabalhar com a possibilidade de usar a tecnologia em grande escala. ;Embora esses motores sejam muito pequenos, nos perguntamos qual poderia ser o limite de desempenho possível, caso eles sejam aperfeiçoados;, conta ao Correio Ahmet-Hamdi Cavusoglu, um dos criadores do dispositivo e pesquisador da Universidade de Columbia.

Promissor
Os pesquisadores concentraram os cálculos nos Estados Unidos, pela melhor acessibilidade às informações meteorológicas. Pelos dados, estimam que os lagos e os reservatórios norte-americanos poderiam gerar, com a técnica, 325 gigawatts de energia, quase 70% do que o país produz atualmente. ;Temos a tecnologia para aproveitar a energia do vento, da água e do Sol, mas a evaporação é muito poderosa também. Agora, podemos estimar números que apontam esse potencial;, ressalta Ozgur Sahin, biofísico na Universidade de Columbia e líder do estudo científico.

Klaus Lackner, físico da Universidade Estadual do Arizona, avalia que o trabalho pode ser considerado uma promessa para a área energética. ;A evaporação tem um grande potencial, poderá render ganhos imensos na produção elétrica. É muito bom saber que o ciclo da água, que ocorre em todo o planeta, também pode ser usado para coletar energia de forma mecânica;, ressalta o especialista, que não participou do estudo.

Reúso
A técnica também poderia fazer parte de um mecanismo de economia de água, segundo os criadores. Eles preveem que, depois de gerar energia, o vapor volte à fase líquida e possa ser armazenado para usos diversos. A estimativa é de que essa economia possa chegar a 25 trilhões de galões por ano, ou cerca de um quinto da água que os norte-americanos consomem. A tecnologia para esse reúso do vapor, porém, ainda não foi desenvolvida pela equipe.

Os cientistas também destacam que o processo de captação de energia não atrapalha o equilíbrio do meio ambiente. Segundo eles, a parte da água evaporada que não for capturada é suficiente para dar continuidade ao ciclo necessário para a formação de chuvas. Eles trabalham com a captação de metade da evaporação de lagos e reservatórios.




"Temos a tecnologia para aproveitar a energia do vento, da água e do Sol, mas a evaporação é muito poderosa também. Agora, podemos estimar números que apontam esse potencial;
Ozgur Sahin, biofísico na Universidade de Columbia e líder do estudo científico




"Colocar painéis fotovoltaicos, que são os utilizados para captar energia solar, seria algo muito mais viável economicamente neste atual estágio (;). Pode ser que, com o evoluir da pesquisa, surjam estratégias mais viáveis;
Shigueo Watanabe, mestre em física pela Universidade de São Paulo (USP)




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