Nas lentes da cultura queer

Nas lentes da cultura queer

Projeto The drag series tem como foco enaltecer e registrar a arte drag por meio de retratos individualizados

Isabella de Andrade Especial para o Correio
postado em 02/10/2017 00:00
 (foto: Fernando Cysneiros/Divulgação-24/10/16)
(foto: Fernando Cysneiros/Divulgação-24/10/16)






Inspirado na realização pessoal e na vontade de mostrar a arte drag e a cultura queer para o maior número possível de pessoas, o fotógrafo Fernando Cysneiros, de Recife, criou o projeto The Drag Series. Com 12 meses de fotografia o projeto não tem data para acabar e depois de passar por diferentes regiões o trabalho reuniu mais de 100 drags vindas de 20 cidades e três países. As lentes da câmera apontam para retratos feitos de maneira padronizada em fundo branco, possibilitando que todo protagonismo da cena fique para a modelo em questão. As cores, maquiagens, figurinos e pinturas corporais refletem a criação e a personalidade das drags, que mostram características universais do mundo queer aliadas ao individualismo e características regionais em cada nova fotografia.

Fernando conta que o objetivo é expor a arte queer para o maior número possível de pessoas e possibilitar que os interessados possam conhecer artistas de outros estados, além de mostrar a pluralidade das drag queens. O fundo branco foi escolhido tanto pelo protagonismo quanto pela logística. Na questão do protagonismo, é através dele que as drags podem se destacar, preencher essa moldura branca da maneira que desejarem, destacando tudo que elas tem a apresentar. Através da fotografia é possível expôr a personalidade de cada modelo, que pode mostrar algo que represente sua essência, sua personalidade, o que define seu personagem.

A logística também é importante e o projeto foi desenvolvido para que o fotógrafo pudesse fazer fotos em qualquer lugar, e que elas pudessem sempre ter a mesma estética, independentemente das condições do dia, do ambiente e de luz. ;O fundo branco também é uma maneira prática, pois as fotos não são feitas em estúdios, e sim numa variedade de lugares: suas casas, camarins de boate e tudo mais. E sempre tem uma parede branca para usar;, conta. As fotografias, quando vistas em série, permitem que o observador note que existe uma infinidade de tipos diferentes de drag, desde as mais femininas, passando pelas caricatas até as que não seguem necessariamente estereótipos do gênero feminino, como as club kids (com muita cor, neon, glitter e plataformas, os figurinos não seguem, necessariamente, o padrão feminino das drags).

Trejeitos
Cysneiros lembra que a arte drag é uma maneira de se expressar, e isso pode resultar numa infinidade de looks diferentes. ;Um garoto gay que sofreu muito bullying por conta de trejeitos ditos como femininos pode transformar esse trauma numa drag extremamente feminina, por exemplo. Ou então alguém que sofre com depressão e ansiedade pode canalizar estes sentimentos para montações mais artísticas que representem o estado de espírito;, lembra o fotógrafo. Ele destaca que, por sua experiência, a drag parece refletir a pessoa que está por trás do personagem.

Essa variedade é retratada na série, que busca mostrar a imensa possibilidade de caracterizações e trabalhos. Fernando ressalta que nem toda drag precisa performar da maneira mais comum, no palco de alguma boate. ;Existem drags com foco apenas na maquiagem e cabelo, compondo visuais incríveis para serem apreciados. Drags modelos, drags youtubers, drags cantoras, drag mestre de cerimônias;. Ao longo do trabalho, Fernando retrata as semelhanças universais e as individualidades regionais, como por exemplo: drags de Salvador que utilizam a cultura e vestimentas do local para criar seus looks; drags curitibanas que tem um toque muito forte de pin-up e drags do nordeste que já fizeram figurinos como Maria Bonita.

O fotógrafo conta que o trabalho é movido pelo interesse pessoal em divulgar o trabalho artístico da comunidade LGBT . Por dia, Cysneiros chega a fazer 10 retratos. A possibilidade de mostrar drags de diferentes lugares do país é outro ponto forte e, até o momento, foram retratadas drags de 13 estados brasileiros. O projeto fotográfico se constrói a partir de uma vontade de experimentar sua técnica em fotografia com flash, aprimorar seu trabalho pessoal e desenvolver um trabalho que beneficie a comunidade LGBT. A variedade de características é um dos pontos fortes do trabalho e Fernando pretende dar continuidade aos retratos sem limite de tempo.





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