Vestibulares tragicômicos

Vestibulares tragicômicos

leves e bem-humorados, Contos de Ivana Arruda Leite narram casos inusitados que ocorreram em exames de outros tempos e de agora

Jairo Macedo Especial para o Correio
postado em 02/10/2017 00:00


Fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ou qualquer outra prova de ingresso no ensino superior não está fácil para ninguém. O que os candidatos mais jovens talvez não saibam é que nunca esteve. Prova disso é o lançamento do livro Vestibulandos ; Histórias Tragicômicas (Edições SM), da escritora Ivana Arruda Leite, com ilustrações de Mauricio Pierro. Trata-se de uma divertida e despretensiosa coletânea de contos que engloba avaliações dos anos 1970 até os dias atuais.

As narrativas são baseadas em depoimentos reais, dados à autora com o tom cômico que só o tempo garante às histórias que, à época em que aconteceram, pareciam as piores tragédias na vida de cada um. ;São episódios engraçados, casos que ocorreram em exames de outros tempos e de agora. Gente aflita de todas as décadas!”, diverte-se a escritora. ;São provas em que você precisa escolher o que vai fazer no futuro e é muita pressão. Depois de anos, aí sim, a gente morre de rir.;

Autora de diversos contos e romances para adultos, bem como alguns livros infantojuvenis, ela conta que o convite para a nova empreitada surgiu por acaso, a partir de história pessoal contada descompromissadamente em uma mesa de bar. A escritora lembrava de quando, no vestibular que fez para Arquitetura na Universidade de São Paulo (FAU/USP), levou um pequeno banquete ao local de prova, com direito a salgados, doces, refrigerante e tudo mais. ;Às vezes, eu ficava sem comer de tanto estudar e, com fome, não pensava direito. No meio da avaliação, abri tudo e fiz o meu lanche. Todos em volta olharam estranho para mim. Deviam pensar: ;Quem é essa louca?;.; Ela foi aprovada naquele vestibular, embora tenha abandonado o curso alguns anos depois para ingressar em ciências sociais na mesma universidade, pela qual hoje é mestre.

O caso gerou muitas risadas, desencadeando outras lembranças dos amigos presentes. Por sorte, um deles era editor e propôs, ali mesmo, que Ivana Arruda Leite escrevesse o livro. ;Quando dei por mim, tinha várias histórias em mãos. Muitos, quando ficaram sabendo, me mandaram histórias deles pelas redes sociais. Vieram muitos depoimentos espontâneos.;





Casos reais
Acontece de tudo na vida dos vestibulandos, desde gente atrasada tomando decisões extremas até brincadeiras sem graça que terminam muito mal. A autora afirma que um dos primeiros depoimentos coletados foi o de uma menina paulista, cuja cidade ficava a alguns quilômetros da capital. No dia do vestibular, a mãe dela a levava por estrada normalmente muito congestionada. Naquele dia, a fila de carros estava especialmente estressante e lenta, em função de forte chuva.

Com a via alagada, a mãe não pensou duas vezes. ;Desesperada, ela parou um motoqueiro que passava, colocou a filha na garupa e disse: ;Pode levar!’. O medo da menina perder um ano de estudos foi maior que o de entregá-la ao completo desconhecido;, diz a autora. No fim das contas, embora muito assustada, a então adolescente fez uma boa prova e passou no vestibular. Hoje é uma arquiteta bem-sucedida.

Outro caso, o da personagem Ludmila, envolve armas e muita reza. A candidata levava como amuleto de sorte a medalhinha de Nossa Senhora da Cabeça, que a mãe lhe deu. Durante a avaliação, um rapaz mal-encarado fazia perguntas indevidas sobre as questões ao fiscal de prova. Esse, claro, explicava ao jovem que não poderia responder. Supostamente irritado, o candidato sacou então uma arma e Ludmila teve que rezar um pouquinho mais. Ao anunciar que se tratava de um revólver de brinquedo e cair, sozinho, na gargalhada, o jovem foi imediatamente retirado de sala. ;Vamos ver se o delegado vai achar graça na brincadeirinha;, teria dito o segurança do local.

Mudanças
Algumas narrativas do livro impressionam pelos formatos inusitados na aplicação do exame e, de quebra, ainda ajudam o leitor a intuir o pano de fundo histórico da época. Muita coisa mudou desde então. O conto Lúcia e Romero, por exemplo, se passa no estádio Maracanã. Lá, nas arquibancadas desconfortáveis e sob o sol inclemente do Rio de Janeiro, milhares de candidatos fizeram os vestibulares unificados de 1972 e 1973. O mesmo ocorreu no Mineirão, em Belo Horizonte, e outros grandes palcos ; bem diferentes das modernas arenas atuais ; do futebol brasileiro.

;Acompanho a grande expectativa que cerca o exame do Enem hoje em dia e sinto uma grande diferença;, diz a autora. Para ela, os modos de execução das provas estão mais humanizados. Além disso, o maior acesso ao ensino superior no país trouxe, por consequência, um pouco menos de pressão aos candidatos. ;Na minha época, ou você fazia faculdades tradicionais ; arquitetura, engenharia, direito, medicina ; ou não fazia nada. Era um investimento muito grande da família. Afinal, era um tempo em que pouca gente tinha acesso ao ensino superior. Portanto, não podíamos decepcionar.;




Vestibulandos - Histórias Tragicômicas
Autora: Ivana Arruda Leite
Editora: SM Edições
Páginas: 64
Preço: R$ 43,00





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