Um Nobel contra a loucura nuclear

Um Nobel contra a loucura nuclear

Comitê Norueguês agracia Campanha Internacional para Abolir Armas Nucleares (Ican) e envia forte mensagem política aos EUA e à Coreia do Norte. Diretores da coalizão de organizações falam ao Correio e elogiam papel do Brasil

» RODRIGO CRAVEIRO
postado em 07/10/2017 00:00
 (foto: Britta Pedersen/AFP
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(foto: Britta Pedersen/AFP )

Foi um prêmio de reforço ao legado do inventor sueco Alfred Nobel e, principalmente, de condenação à tensão nuclear provocada pela Coreia do Norte e pelos Estados Unidos. Em meio a uma versão readaptada da Guerra Fria, o Comitê Nobel Norueguês decidiu conceder uma das maiores distinções da humanidade à Campanha Internacional para Abolir Armas Nucleares (Ican, pela sigla em inglês). Criada na Austrália, em 2007, e fundada oficialmente na Áustria, a coalizão internacional reúne 486 organizações de 101 países, incluindo o Brasil.

Em comunicado, o Comitê afirmou que a Ican recebe a honraria por ;seu trabalho em atrair a atenção para as consequências humanitárias catastróficas de qualquer uso de armas nucleares e por seus esforços inovadores para alcançar um tratado baseado na proibição de tais armas;. ;Vivemos em um mundo onde o risco de que utilizem as armas nucleares é o mais alto que já existiu;, declarou Berit Reiss-Andersen, presidente do Comitê. ;Alguns países modernizam os arsenais nucleares, e o perigo de que cada vez mais nações se dotem de armas nucleares ; como a Coreia do Norte ; é real.;

O anúncio do Nobel ocorre 33 dias após o regime de Kim Jong-un realizar o sexto teste atômico. Daniel H;gsta, coordenador de Rede da Ican (leia entrevista), considera ;aterrorizante; o fato de um regime ameaçar o uso de armas nucleares. ;A situação de perigo não é criada somente pela Coreia do Norte, mas pelas nove nações detentoras de armas atômicas. Por sua posição a favor do arsenal, elas criaram um status quo, no qual tais armas são vistas como legítimas;, disse ao Correio.

O ativista reconheceu que a confrontação entre Washington e Pyongyang aproxima o mundo de um desastre. O ativista criticou a intenção do presidente americano, Donald Trump, de não certificar o acordo nuclear assinado com o Irã. ;É uma manobra infeliz. O pacto com Teerã não deveria ser tocado por Trump.;

H;gsta elogiou o papel do Brasil no processo de não proliferação. ;O Brasil tem sido um campeão ao longo dos últimos anos, por levar as nossas iniciativas adiante. Quero reconhecer a nossa parceria com o Grupo de Prática de Direitos Humanos e de Direito Internacional, baseado na Universidade Federal do Pampa (em Bagé/RS) e liderado por Cristian Wittmann (leia o depoimento). Somos muito gratos ao papel brasileiro;, comentou.

Por telefone, Wittmann disse crer que o Nobel colocará o tema das armas nucleares novamente em pauta. ;Depois da Guerra Fria, o mundo se acostumou que, em certa medida, existem mãos boas para armas ruins. É uma falácia imposta pelas potências nucleares. Este reconhecimento traz à tona a necessidade de um debate público sobre a proibição e a erradicação dessas armas;, opinou. Ele destacou que uma detonação atômica ; mesmo que acidental ; produziria impacto humanitário ;incapaz de ser respondido;. ;O risco decorre de todos aqueles que possuem armas nucleares, seja a Coreia do Norte, sejam os EUA. O nosso papel é ampliar a pressão pela estigmatização desse arsenal;, reconheceu Wittmann.

Críticas

Dois dias antes do anúncio do Nobel, Beatrice Fihn (leia entrevista), diretora executiva da Ican, usou o Twitter para atacar o líder americano. ;Donald Trump é um idiota;, escreveu. Ontem, ela tornou a criticar o republicano. ;A eleição do presidente Donald Trump incomodou muita gente pelo fato de que ele pode autorizar por si só o uso das armas nucleares;, declarou.

Diretor da ONG Associação de Controle de Armas, Daryl Kimball explicou ao Correio que, em uma época na qual Estados nucleares reconstroem ou expandem os arsenais, e quando EUA e Coreia do Norte trocam ;ameaças irresponsáveis;, o Nobel ;é uma forte repreensão àqueles governos e líderes que continuam a promover o papel e o uso em potencial dessas armas de terror em massa no século 21;.

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