Em dia de adeus, cidade chora mais mortos

Em dia de adeus, cidade chora mais mortos

Sobe para nove o número de óbitos no incêndio de creche em Janaúba (MG). A sexta-feira foi dia de enterrarvítimas da barbárie. Laudo psicológico aponta que vigia tinha consciência e planejou com cuidado o massacre

LUIZ RIBEIRO Enviado Especial
postado em 07/10/2017 00:00
 (foto: Luiz Ribeiro/EM/D.A Press
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(foto: Luiz Ribeiro/EM/D.A Press )




Janaúba (MG) ; ;Vai com Deus, anjinho.; A frase dita por um amigo da família de Ana Clara Ferreira da Silva, de 4 anos, uma das vítimas do incêndio na creche Gente Inocente, aumentou a comoção durante o enterro da menina, em Janaúba. Outras três crianças e uma professora foram sepultadas ontem, tornando a data uma das mais tristes da história da cidade. No início da tarde, as autoridades confirmaram mais duas mortes: Yasmin Medeiros Salvino e Cecília Davina Gonçalves Dias, ambas de 4 anos.

Durante o enterro de Ana Clara, a mãe da menina, Luana Ferreira de Jesus, e o pai, Nelsir de Jesus Silva, entraram em desesperado e foram amparados por parentes. Aos prantos, Nelsir dizia que teve uma doença recente e que a filha ficava perguntando quando iria recuperar-se. Depois que ele melhorou, perdeu a filha.

Após o sepultamento, o casal viajou para Montes Claros, onde estão internadas as outras duas filhas: Giuly Maria, de 2, e Ludmila, 6, que ficaram feridas na tragédia. Ao todo, Luana tinha quatro crianças na creche ; uma delas, Victor Hugo (gêmeo de Ana Clara), saiu ileso e continua em Janaúba, com parentes.

Após Ana Clara, foi sepultado o corpo de Ruan Miguel Soares Silva, de 4. A mãe dele, a faxineira Jane Kelly Silva Soares, de 29 anos, chegou a passar mal. ;Não sabemos o que dizer. É muito difícil;, afirmou a desempregada Maria de Jesus Pereira, tia do garoto. Foram enterrados, também, Luiz Davi Carlos Rodrigues e Juan Pablo Cruz Santos, ambos de 4 anos.

Não houve divulgação do sepultamento do corpo do autor da barbárie, o vigia Damião Soares dos Santos, ocorrido ontem. O motivo do sigilo foi evitar que houvesse atentados contra parentes dele.

O velório e o sepultamento da professora Helley Abreu Batista, de 43 anos, foram acompanhados por centenas de pessoas, entre parentes, amigos e colegas de trabalho. Ela é considerada uma heroína por ter enfrentado Damião dos Santos e ter salvado várias crianças das chamas. O corpo foi trasladado até o cemitério em cima de um carro aberto do Corpo de Bombeiros. Um grande número de veículos seguiu o cortejo.

No cemitério, o marido de Helley, Luiz Carlos Batista, emocionou a todos ao dizer que a mulher tratava as crianças da creche como filhos, tinha por elas muito amor. ;Ela foi escolhida com a missão de salvar vidas. Mesmo sofrendo, compreendo essa missão;, afirmou.

Mortes
Com a morte de Yasmin Salvino e Cecília Davina, sobe para oito o número de vítimas, além do próprio criminoso. Na noite de quinta-feira, chegou a ser anunciada o óbito de Cecília Davina, mas, ontem de manhã, a Polícia Militar esclareceu que houve um erro de avaliação médica. Segundo a nota, ;a menina, que estava em parada cardíaca, foi reanimada após sucessivas manobras cardiopulmonares;. Porém, no início da tarde de ontem, a criança faleceu. Cecília teve 80% do corpo queimado, e Yasmin, 90%.

As informações oficiais são de que há 41 vítimas internadas: 15 em Montes Claros, 13 em Belo Horizonte e 13 em Janaúba. Treze estão em estado grave.

O laudo que traçou o perfil psicológico do vigia Damião dos Santos mostrou que ele tinha consciência do crime bárbaro que cometeria. ;O laudo vai para o caminho da perversão, que houve planejamento, uma premeditação. Também houve uma execução bem organizada. Um sujeito em surto psicótico não teria essa organização toda que ele teve;, afirmou o médico legista Daivisson Antônio Amilton, em entrevista à TV Globo. ;Ele adquiriu os frascos de combustível três dias antes do acontecido. E a data foi simbólica: o dia da morte do pai dele, há três anos.;

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