Reconhecimento à solidariedade

Reconhecimento à solidariedade

O médium Divaldo Franco foi homenageado em solenidade na Câmara dos Deputados por ajudar a construir um mundo melhor

DEBORAH FORTUNA ESPECIAL PARA O CORREIO
postado em 07/10/2017 00:00
 (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
No dia em que viu um espírito pela primeira vez, Divaldo, à época com 4 anos, não tinha ideia do rumo que a vida tomaria nos anos seguintes. Enquanto brincava na sala de casa, uma senhora apareceu. Sem medo, chamou pela mãe. Ela brigou: ;Não há ninguém aqui;. Mas, nos olhos do garoto, aquela senhora de idade era tão real quanto qualquer pessoa de carne e osso. Foi ali, no município de Feira de Santana (BA), que a história começou. Hoje, aos 90 anos, Divaldo Pereira Franco é um dos médiuns mais cultuados pela Federação Espírita. Viajou por 70 países, visitou 2,5 mil cidades, montou uma comunidade para crianças em situação de vulnerabilidade social e foi homenageado como uma das personalidades que construíram um mundo melhor em uma solenidade, ontem, na Câmara dos Deputados.

O riso é frouxo, a fala é mansa e a aparência, impecável. Com nove décadas de idade, Divaldo tem simpatia de sobra e espalha amor. Pelo menos, é essa a mensagem que ele quer passar a todos os jovens: a de que o mundo tem violência demais e que, agora, é necessário enchê-lo de boas ações. ;Quando amamos e desdobramos o sentimento de amor, o mundo se torna melhor, porque nós nos tornamos melhores. Nós temos inimigos, mas é importante não ser o inimigo de ninguém;, afirmou. Pelas ações, Divaldo foi homenageado pela Câmara dos Deputados. Em 2005, ele recebeu o título de Embaixador da Paz no Mundo, concedido por uma universidade em Genebra.

Ao longo da vida, o médium se dedicou a trabalhar com crianças em situação de vulnerabilidade social. Em 1952, ao lado de Nilson de Souza Pereira, outro divulgador do espiritismo, criou o complexo Mansão do Caminho, que atende a 3 mil crianças de baixa renda em um bairro da periferia de Salvador. Ao todo, 684 jovens foram adotados por ele ; hoje, alguns são emancipados e casados, com filhos e netos. ;Recebi uma informação de que deveria criar um lar para receber crianças órfãs. Então me dediquei a recebê-las. Hoje, nós temos um complexo muito moderno. Atendemos mais de 5 mil pessoas e procuramos lhes dar o máximo possível;, disse. O lugar tem 83 mil m; e 50 edificações para atender todo o público que busca por assistência, como escola, creche e centro de saúde. O espaço, inclusive, é a casa de Divaldo, que, apesar de sair do interior, nunca deixou de morar no estado.

Como divulgador da doutrina espírita, Divaldo publicou 250 livros. Foram distribuídos 8 milhões de exemplares para 17 idiomas. O dinheiro arrecadado com a venda dos livros, gravações de palestras, DVDs, vai para a Mansão do Caminho. Em 1949, inciou a psicografia e escreveu diversas obras sob a orientação da guia espiritual Joanna de Ângelis.

A Câmara dos Deputados recebeu um evento de comemoração e homenagem à vida e à obra do médium baiano. Houve uma sessão solene e a entrega do Troféu Você e a Paz a cinco homenageados: Juscelino Kubitschek de Oliveira, Remanso Fraterno, Jerônimo Mendonça Ribeiro, Joana Angélica de Jesus e Dom Bosco, personalidades que trabalharam em prol da Paz para a humanidade. Sobre a homenagem que recebeu, Divaldo é enfático: ;Vai estimular outras pessoas a se dedicarem ao bem. E o bem compensa a nós próprios. O bem que fazemos nos faz um grande bem;.

Divaldo também é homenageado na exposição Os Pacificadores, em cartaz no Espaço Cultural da Federação Espírita Brasileira, na 603 Norte, em horário comercial. O objetivo é lembrar pessoas que se dedicaram a tornar o planeta um lugar melhor. A mostra retrata as histórias de personalidades como Gandhi, Martin Luther King Jr, Nelson Mandela, Madre Tereza e Chico Xavier, em prol da paz para a humanidade.

Primeiras manifestações

Apesar do reconhecimento, o caminho não foi sempre fácil. Ainda na adolescência, Divaldo teve que encarar julgamentos, descrenças e chegou a ser levado para psiquiatras, que o identificaram como esquizofrênico. A história de mediunidade teve início quando uma senhora apareceu na sala de casa enquanto ele brincava e pediu para que o menino chamasse pela mãe, Ana. ;Então ela disse: ;Diga que é Maria. Eu sou sua avó;. Para mim, aquilo foi uma surpresa porque eu não sabia o que era uma avó, porque os meus já haviam desencarnado. Quando eu disse isso, ela ficou assustada, porque ela nunca tinha pronunciado o nome da própria mãe;, contou.

Com a revelação, Ana levou o filho até a casa da irmã. E ele disse para elas a mensagem que a avó desejava. ;A partir daí, eu comecei a ter contato com espíritos. Embora católico ; eu confessava, fazia promessas ;, quanto mais eu me concentrava orando no santíssimo altar, mais eu via;, revelou.

Mesmo com as visões que o acompanham desde os quatro anos, o dom foi descoberto por uma outra médium, anos depois. Divaldo estava abalado pela morte de um irmão mais velho e não conseguia mais andar. Passou por consultas médicas, mas nada conseguiu resolver o problema. Foi com a ajuda da outra médium que se libertou da situação. Segundo ela, a paralisia se tratava do irmão desencarnado. ;Ela disse que não era uma doença, mas uma perturbação espírita pelo fato de eu ser médium.;

O problema é que Divaldo começou a ter problemas dentro da Igreja Católica, já que o padre dizia que o ato era pecado. ;Para mim, era uma pertubação contínua, porque eu não sabia do que se tratava e, como o sacerdote disse que era uma interferência demoníaca, para poder me tirar da igreja, isso me apavorou;, disse. Divaldo contou que chegou a ter um período de descrença, mas sempre algum espírito vinha e o aconselhava para o bem. ;O mal não pode fazer bem. O meu sacerdote dizia que era uma forma de me seduzir, uma farsa. Mas essa ;farsa; durou cerca de 13 anos, até eu me convencer de que eram forças poderosas, que estavam me chamando para o caminho do bem;, comentou.

Além da igreja, os problemas se refletiram no trabalho. ;Eu era funcionário público e via muitas pessoas chegarem ao balcão, me chamavam, conversavam e eram pessoas desencarnadas. Eu tive muitas dificuldades com meu chefe, porque ele achava que era alucinação;. Nessa época, o chefe o levou ao psiquiatra, que também confirmou a alucinação. Em uma das sessões, Divaldo disse que chegou a ver o espírito do pai do profissional junto a ele. ;Ele disse que, se não fosse alucinação, então era esquizofrenia ou personalidade múltipla, mas não me convenceu. Então eu resolvi não fazer nenhum tratamento psicológico;, afirmou.

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