Márcio Cotrim

Márcio Cotrim

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postado em 07/10/2017 00:00
ORLANDO! (II)

Cadê o governo? Ele existe, claro, só que ninguém o vê, a não ser em sua presença ostensiva na segurança. A rotina diária está desimpedida de burocracia, o ar que se respira não é estatal, tem o cheiro e o sabor da iniciativa individual.

O grande parque de diversões chamado Orlando é a consagração da inventividade. O sol que aquece a cidade o ano inteiro é valioso aliado da população, que sobrevive do turismo e dos negócios gerados por ele. A cidade não tem chaminés, tudo é turismo em dimensões sesquipedais. Por isso mesmo, acho que nossos cursos universitários de marketing e de turismo deviam proporcionar aos seus alunos pelo menos um semestre de extensão prática em Orlando. Lá eles receberiam aulas ao vivo. Assim como os futuros oficiais da Marinha saem al mare e conhecem vários países do mundo no início da carreira ; uma espécie de aperitivo profissional ;, no caso dos estudantes de marketing e de turismo nada mais proveitoso e estimulante para quem começa a vida e chega ao mercado de trabalho. Nesse clima de permanente folguedo vivem 10 mil brasileiros devidamente legalizados (os ilegais são incontáveis).

Não há ônibus urbanos nas ruas. Eu, curioso, fui esclarecer a dúvida com o Walter Comassetto, empresário gaúcho lá estabelecido há 7 anos e vice-presidente da Câmara Brasil ; Estados Unidos na Flórida. Com uma boa risada, ele informou que não há necessidade de ônibus urbanos em Orlando pela singela razão de que todos os habitantes da cidade possuem carro. Também, pudera. Um automóvel novinho em folha pode ser comprado por 200 dólares mensais, quem resiste?

Coisa parecida ocorre com a moradia. A maioria dos orlandinos vive em casa própria, o que não chega a ser grande vantagem. Como na cidade inexistem prédios residenciais de apartamentos, o sujeito mora mesmo é numa casa, geralmente confortável, cercada de áreas verdes, sem muros para a vizinhança, bem parecida com as que aparecem no cinema. Pois bem, essa casa pode ser comprada com 20% de entrada e o restante em coisa de 30 anos com prestação mensal de 800 dólares, preço de um minúsculo estúdio em Brasília. Estou falando de uma casa típica, de três quartos, instalações completas, garagem e um bom terreninho nos fundos para o barbecue semanal. Desde 1995, dois mil brasileiros já compraram casas em Orlando nessas condições. Não que desejem mudar-se para lá, mas pode ser bom negócio: o comprador entrega a casa a uma imobiliária local e esta a aluga por 1,5 mil dólares quinzenais, bom lucro. Além disso, o comprador terá onde passar as férias, de graça, todo ano.

Mas nem tudo são flores na Flórida. Há, embora não declaradas, discriminações constantes por aquelas bandas. Por exemplo, apesar de o Brasil ser o terceiro país a desembarcar turistas em Orlando ; são 230 mil anualmente, só perdemos para a Inglaterra, que oferece dezenas de vôos diários de Londres a 270 dólares, tudo incluído ; e apesar da boa vontade da prefeita da cidade, Glenda Hood, que até já ofereceu espaço para um consulado permanente do Brasil em Orlando, o fato é que, no universo de Disney, o Brasil ainda é terra de índio, cobras e lagartos pelas ruas.

No amorável brinquedo It;s a Small World, só aparecemos num cantinho do percurso, na figura de uma baiana no meio da selva, cheia de bananas na cabeça. Quando termina o passeio, o adeus é pronunciado em onze idiomas, menos o nosso! E que dizer da imagem que eles fazem do Brasil na Rainforest, dentro da espetacular Disney Village? Num grande espaço que pretende reproduzir a ambientação de uma floresta tropical brasileira e ao som de antiga bossa nova, aparecem elefantes, girafas e zebras, para ruidosas gargalhadas dos brasileiros que visitam o lugar. É como se estivéssemos nos cafundós do Zimbabwe ou do Burundi.

Outro equívoco, este de marketing. Em qualquer loja de bugingangas os chaveiros, lápis, canetas e outras tralhas personalizadas só oferecem nomes saxônicos e não latinos. Não há Maria, mas Mary, João nem pensar, tampouco Juan, o que há é John e lamba os beiços. Nesse caso, não se pode falar em discriminação, é claro, mas em incompetência, pelo simples fato de serem olimpicamente ignorados milhares de compradores reais e potenciais do Brasil e de tantos países latino-americanos, ávidos por lembranças para parentes e amigos.

Outra discriminação não chega a ser surpresa. Afinal, a Flórida é um estado do Sul dos EUA e defendeu a manutenção da escravatura na Guerra da Secessão. Por isso mesmo, a bandeira confederada de Jefferson Davies é figurinha fácil em qualquer biboca de souvenirs. O fato é que o negro não está incluído na paisagem, sobretudo nos domínios de Disney, o que também não supreende, já que Walt Disney nunca foi propriamente um liberal em assuntos raciais.

Tudo isso é tão notório que o Walt Disney World bem poderia chamar-se White Disney World. A propósito, guardo uma imagem forte durante uma das ricas paradas diárias no parque principal, uma menina negra a meu lado, mãos dadas com a mãe, olhava para todo aquele deslumbramento alvíssimo e seus olhinhos, eloquentes, diziam que ela estava fora de seu mundo, que aquilo ;não era coisa para preto;, na infame frase dos racistas. Aliás, não há sequer um vereador negro em Orlando. Os negros formam uma minoria conformada e moram num bairro isolado, espécie de gueto local.

O universo branco sabe cultivar seus valores históricos. O quotidiano de Magic Kingdom é uma ininterrupta eclosão de louvores ao american way of life sob vibrantes marchas militares de Sousa e afins. As cores nacionais aparecem em quase tudo o que se vê. Flâmulas, bonés, xícaras, roupas estreladas e listradas, numa exaltação cívica que não conhece paralelo no mundo.

O Hall of the Presidents bem representa isso. Num impressionante cenário, todos os presidentes norte-americanos, reproduzidos em bonecos perfeitos, se encontram, trocam ideias e reafirmam os melhores ideais da democracia que inspiraram o advento da grande nação. Bom e edificante exemplo a ser seguido por nós outros, tão descuidados que somos em enaltecer valores nacionais.

Tanto progresso e fartura acabaram produzindo um país de obesos. Disso e de otras cositas más, porém, falaremos na próxima semana.





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