Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 08/11/2017 00:00
Colapso dos valores

A todo momento somos assolados por notícias de crimes que parecem desafiar a nossa inteligência e a nossa capacidade de explicação. E, cada vez mais, envolvendo adolescentes. Claro que existem explicações sociológicas, psicológicas, psiquiátricas, psicanalíticas e filosóficas.

Mas, de minha parte, sempre busco uma luz na obra de Dostoiévski, o possesso escritor russo. Sou um leitor de Dostoiévski desde os 16 anos. Morava em São Paulo e os meus amigos da rua se divertiam com a suposta brincadeira de pegar os gatos pelo couro e atirá-los nas paredes dos muros. Certo dia, me revoltei e chamei a todos de imbecis, provocando uma explosão de gargalhadas e deboches.

Fiquei me achando o último dos homens, como diria Nietzsche. Mas a sensação de ser um extraterráqueo com um olho no meio da testa se desfez ao ler o romance Crime e castigo, de Dostoiévski. A certa altura, uma criança testemunha a cena do espancamento de um cavalo e se abraça ao animal ensanguentado, impedindo a sessão de chicotes, aplaudida pela plateia da rua.

Com espírito visionário, Dostoiévski antecipava, no século 19, a crise moral que viveríamos no século 21: ;Se Deus não existe, então tudo é permitido;, dizia o personagem Ivan, em Os irmãos Karamazovi, enunciando uma fórmula para o nosso drama moral.

Sempre tive muita curiosidade de ler Os demônios, uma ficção de mais de 800 páginas. Imaginava que se tratava de um fenômeno de possessão espiritual que interferisse na ação dos personagens. Mas, na verdade, Dostoiévski desfere uma crítica incisiva à crise de valores do mundo ocidental. É possível vivermos sem valores morais, movidos apenas pelos nossos desejos, prazeres ou ideologias?

Dostoiévski era fascinado pelos casos criminais. Ele ficava impressionado pelo fato de que, na língua russa, criminoso e infeliz fossem quase que sinônimos. Os personagens de Os demônios cometem crimes hediondos. Mas, diferentemente do que sugere o título, eles não firmam nenhum pacto com o diabo ou estabelecem qualquer outro tipo de transação com o sobrenatural.

Na verdade, o que os torna demônios é o fato de não acreditarem em nenhum valor moral, de agirem animados pela ideia de que a sua liberdade está acima de tudo. Como não pensar nos personagens pós-modernos?

É claro que existem graves problemas sociais envolvendo os crimes estarrecedores. Mas há também uma dimensão moral. Sem valores firmes inculcados na consciência e transformados quase que em instinto, nós corremos o risco de nos transformarmos em demônios, para além do bem e do mal.

Mesmo dominados por valores egocêntricos, os personagens de Os demônios têm vislumbres de alguma dimensão transcendente: ;Há momentos ;diz o personagem Kirilov ; duram cinco ou seis segundos ; em que a gente sente de súbito a presença da harmonia eterna: isso quer dizer que a atingimos (;). É uma alegria tão grande. Se durasse mais de cinco segundos, a alma não a suportaria e teria de desaparecer;.

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