O dragão de olho no Sul

O dragão de olho no Sul

Governo do presidente Xi Jinping comemora "progresso histórico" nas relações comerciais com a América Latina e o Caribe. Instabilidade política do Brasil ainda representa obstáculo para investimentos. Especialistas veem cooperação mais balanceada e reconhecem a importância da região para Pequim

Paulo de Tarso Lyra Rodrigo Craveiro Enviados especiais
postado em 12/11/2017 00:00
 (foto: Greg Baker/AFP )
(foto: Greg Baker/AFP )



Pequim ; Mais de 15 mil quilômetros separam a América Latina da China. A distância, no entanto, não é obstáculo para o comércio. No ano passado, as relações bilaterais entre os dois povos chegaram a US$ 216 bilhões (cerca de R$ 708 bilhões). Nos oito primeiros meses de 2017, foram movimentados US$ 166,7 bilhões (ou R$ 547 bilhões). O presidente chinês, Xi Jinping, visitou 10 países da região nos últimos quatro anos, manteve encontros multilaterais com quase todos os líderes e promoveu intercâmbio de agendas sobre governança e sobre temas de importância regional e mundial. ;Nós alcançamos vários acordos e resultados, algo sem precedentes no desenvolvimento de nossas relações;, comemora Zhang Run, vice-diretor-geral do Departamento de Assuntos de América Latina e Caribe do Ministério de Assuntos Exteriores da China.

O interesse de Pequim em investir na região, sobretudo no Brasil, remonta aos tempos de governo de Dilma Rousseff, quando os chineses participaram de leilões de exploração dos campos do pré-sal. Em 2013, ao lado da Petrobras, da anglo-holandesa Shell e da francesa Total, as estatais chinesas CNPC e CNOOC fizeram uma oferta única e venceram o leilão do campo de Libra, o maior campo de petróleo descoberto do país. Eles ganharam o direito de exploração, por 35 anos, com expectativa de investimentos de R$ 400 bilhões ao longo desse período.

De lá para cá, o apetite aumentou. Dados da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China indicam que, em 2017, os chineses pretendem investir mais de US$ 20 bilhões em ativos brasileiros ; número 87% maior que o do ano passado. O Correio apurou que o ímpeto de investimentos precisa transpor uma barreira: a instabilidade política do país. ;É claro que o Brasil nos interessa, mas precisamos ter a certeza de qual será o rumo de vocês. Isso deve ficar mais claro depois das eleições do ano que vem, quando será escolhido um novo presidente;, confidenciou um executivo de uma empresa chinesa.

As relações com a América Latina estão respaldadas pela filosofia de Xi. Durante o 19; Congresso Nacional do Partido Comunista da China, o presidente defendeu a abertura de mercado e traçou o mapa do caminho para que a sua nação consolide a posição de liderança até 2050. ;Nós confiamos no desenvolvimento comum de todos os países em desenvolvimento, incluindo os da América Latina e do Caribe. O presidente Xi propôs sérias estratégias e ideias para aperfeiçoar essa cooperação, com metas de desenvolvimento para as nossas relações. Nos últimos cinco meses, temos feito progressos extraordinários, e as mudanças têm sido profundas no campo diplomático para com esses países;, admite o vice-diretor da chancelaria chinesa.

Presença



Além do Brasil, que exporta carne para a nação asiática, a China mantém forte presença no Chile, na Colômbia e no Peru. De acordo com Zhang, o Chile substituiu a Tailândia e se tornou o maior fornecedor de frutas secas para a China ; as exportações em 2015 atingiram US$ 1,2 bilhão, principalmente de cerejas. A América Latina e o Caribe se tornaram o segundo maior destino internacional de investimentos chineses, superados pela Ásia. ;Nós instalamos mais de 2 mil negócios nessas regiões, e os investimentos acumulados diretos alcançaram os US$ 207,15 bilhões ; 15,3% do total mundial. No ano passado, nossos empreendimentos adquiriram campos de petróleo brasileiros, em um negócio de US$ 3,77 bilhões;, explicou o diplomata.

No Peru, a mina de cobre de Las Bambas, uma das maiores em construção no planeta, recebeu injeção de US$ 10 bilhões de empresas chinesas. Companias da China estão construindo sete hidrelétricas no Equador. Surpreendentemente, a parceria política com nações como Cuba, Venezuela e Bolívia, de mesmo alinhamento ideológico com Pequim, não se reflete em alianças econômicas. ;Nós gostamos de negociar com governos ditos de direita. Eles respeitam contratos firmados e não criminalizam os lucros;, disse o executivo da empresa chinesa consultado pela reportagem. ;Em países governados por socialistas, fica mais fácil para entrarmos. Mas é praticamente impossível crescermos lá dentro.;

Professora da Faculdade de Estudos Internacionais da Universidade de Pequim, Guo Jie admite que a relação se tornou mais compreensiva e balanceada. ;Ela parece mais integrada à estratégia diplomática do governo chinês como um todo;, disse à reportagem. ;De fato, a América Latina é muito importante em termos de aumentar o engajamento econômico global da China.; Guo lembra que o desenvolvimento econômico tem sido a missão central do governo Xi. ;Nos últimos anos, temos visto novas plataformas e mecanismos de ambos os lados para ampliarem a cooperação bilateral ou multilateral, tornando essa relação mais sustentável e inclusiva.; Para Matt Ferchen, especialista do Carnegie Endowment for International Peace, a China impulsionará essa cooperação diplomática e econômica. ;A Iniciativa da Rota da Seda provavelmente receberá mais atenção, no formato de ideias de cooperação em infraestrutura;, prevê.

Os repórteres viajaram a convite da Embaixada da China



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