Paulo delgado

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contato@paulodelgado.com.br Com Henrique Delgado
postado em 12/11/2017 00:00

100 ANOS DE UM DESCONFORTO

Em um restaurante de Londres, entre a morte de Karl Marx e o nascimento de Joseph Schumpeter, dois amigos, um liberal e um comunista, jantavam. Ao ouvir gritos de uma briga de rua seguidos de silêncio, o amigo de esquerda disse: ;Perdemos!”. ;Como assim, se você nem sabe do que se trata?;, indagou o de direita. ;Amanhã saberemos. Mas adianto, o lado que perdeu, esse sempre somos nós.;

Não é preciso dizer que se trata de uma alegoria que, como professor, gostava de contar aos meus alunos assustados com o sucesso do capitalismo no mundo. O narcisismo que a esquerda sempre teve pela causa perdida foi muitas vezes confundido com compaixão. No entanto, o fato de um sistema de produção ser coletivo não garante que o aspecto econômico do esforço e da satisfação humana tenha sido melhor alcançado.

O homem é mais criativo usando a imaginação, o sonho e o pensamento do que os braços, o corpo e o suor como fator de produção. Produzir não é criar, é transformar o que existe. O capitalismo avançou mais do que o socialismo porque percebeu, primeiro, que o sonho dos homens é descobrir a desutilidade do trabalho, sua penosidade. A União Soviética sumiu na poeira do tempo, quando passou a confundir a disciplina para o trabalho obrigatório e coletivo com uma teoria geral da escolha e da felicidade humana. Não passa da quimera do Estado benfeitor, desejo de governantes autoescolhidos.

Qualquer regime político fracassa se não confia nas possibilidades contidas na sociedade. Um senso comum democrático e soberano das ações humanas para se organizar e sobreviver com autonomia. Não é defeituoso o método que os líderes da centenária Revolução Russa de 1917 usaram para se manter no poder por tantos anos. Seu maior problema é ter inventado um sistema produtivo cujo custo de implantação e funcionamento foi infinitamente maior do que a satisfação que possibilitou. Nenhum operário, astronauta, comerciante ou fazendeiro torna-se mais criativo e livre com o crachá de um departamento do governo.

O aniversário da revolução bolchevique bem poderia ter passado incólume. Afinal, qual o horizonte oferece às gerações atuais? O fato de ser necessário algum controle reconhecido para qualquer atividade humana não significa que ele deva ser estatal. Se o campo das atividades legítimas só pode ser o controlado pelo Estado, não sobra nenhum papel para o cidadão. E foi essa confusão liberdade-Estado-indivíduo-sociedade que afastou os sonhadores, políticos, intelectuais e ativistas das causas democráticas, da defesa de uma Moscou vermelha.

Com o desmantelamento da União Soviética; com a estraçalhadoramente pragmática adesão da China ao capitalismo; com a alienação mundial que a globalização escancarou no rosto das novas gerações; com a cada vez menos sedutora, idealizada e charmosa Cuba; com o silêncio mundial diante da solução arbitrária do sangrento conflito na antiga Iugoslávia; com a patética Coreia do Norte; com tudo isso, e mais um pouco, o comunismo, como ideia e sonho, perdeu influência nos lares, nos fóruns de formulação de organizações e instituições. O leão se reduziu a gato, deixando um vazio na sadia função de contraponto aceitável para formadores de opinião.

Ainda que não se observem mudanças do padrão de distribuição de renda no mundo capitalista, há, em curso, uma tendência, não cíclica, de acumulação muito significativa da riqueza disposta no planeta. O fenômeno popularizado por um contundente livro de Thomas Piketty, até então um economista francês que fazia carreira distante das discussões econômicas de impacto global, mostrou robustez, pois, mesmo quando combatido, nunca o foi de forma que fragilizasse diretamente o cerne de sua análise.

De fato, a riqueza no planeta está concentrada e continua com uma dinâmica de mais concentração nas mãos, contas-correntes e de investimentos de um reduzido número de indivíduos. Mas o mundo nunca foi tão rico quanto agora, em que a recompensa pelos que apostam no empreendedorismo segue a regra em que o risco dos investimentos é menor do que o retorno elevado que proporciona.

Se você quer ser dono dos seus desejos, não deixe nunca o Estado ser o único empregador. Há um inapelável e desconcertante defeito de origem na democracia. Ela é um filtro para produzir uma minoria legítima e confiável. Caso tal elite se torne desprovida de virtudes, que seja, constitucionalmente, deposta. A areia escorre garganta abaixo na ampulheta. Com quais santos e milagres serão enfeitados os aniversários dos governos progressistas pouco se pode antever. Para a União Soviética, basta o réquiem pela morte do equívoco que foram seus governos arbitrários.
Paulo Delgado, sociólogo



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