Chef das marmitas da UnB

Chef das marmitas da UnB

Na entrada do ICC Sul, ele vende até 200 quentinhas por dia. Parmegiana de frango é o prato mais popular. Além de alunos, pessoas de fora da universidade procuram a comida dele diariamente

Ana Paula Lisboa
postado em 12/11/2017 00:00
 (foto:  Lanna Silveira/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Lanna Silveira/Esp. CB/D.A Press)

Quem passa pela entrada sul do Instituto Central de Ciências da Universidade de Brasília (ICC/UnB), no câmpus Darcy Ribeiro, logo sente o cheiro das quentinhas de Eduardo Andrade, 38 anos. O segundo sentido a ser encantado é a visão, já que os pratos têm aparência apetitosa. Por fim, o comerciante, conhecido como Edu, ganha os clientes pelo paladar. ;As pessoas sempre elogiam muito;, conta. De segunda a sexta-feira, oferece 10 opções de prato por dia. Parmegiana e estrogonofe de frango, risoto, churrasco, filé de peixe estão entre as possibilidades, sempre acompanhadas de complementos, como arroz, feijão, macarrão, farofa de banana, salada e legumes cozidos. ;Não tem menu fixo por dia. Eu sei do que o pessoal gosta e vou alternando;, explica. Cada uma a R$ 10, com exceção da lasanha (de frango, carne, palmito ou berinjela), que sai por R$ 12.


;Essa massa é minha mãe que faz e eu vendo para ela;, explica. A refeição ainda vem com uma bebida de 250ml (água, suco ou refrigerante). Eduardo trabalha nesse ponto da instituição de ensino há três anos e meio. Ele começou vendendo de 25 a 30 pratos por dia e, hoje, comercializa de 180 a 200. ;E sei que haveria potencial para um número até maior, então estou me estruturando;, diz. O crescimento foi tão grande que levou tanto Edu quanto a esposa, Elis Lopes, ex-gerente de uma loja de roupas, a largarem o emprego para se dedicarem ao negócio e até construírem uma cozinha industrial no terreno de casa. Edu trabalhava como vigilante no Data Center do Banco do Brasil. Ao perceber os efeitos da recessão econômica e da inflação, notou que o salário se tornava cada vez mais curto. Para conseguir uma segunda fonte de renda, apostou num antigo hobby: a culinária. ;Sempre gostei muito de cozinha, aprendi observando minha mãe;, conta.


Foi então que ele passou a preparar marmitas. ;Meu trabalho de vigilante era à noite; então eu preparava a comida de manhã e vendia à tarde.; O morador de Sobradinho conciliou as duas atividades por um ano e meio, mas viu que o bico tinha potencial para render muito mais e optou por largar o emprego em vigilância. ;A gente sempre tem um pé atrás ao tomar uma decisão dessas, mas fui confiante porque é uma coisa que gosto de fazer;, relata. Para atender a demanda atual, Edu conta com a ajuda da mulher (responsável por preparar saladas e fiscalizar a cozinha) e de três colaboradores (que atuam na limpeza, nas vendas e no fechamento das marmitas). Mesmo com uma equipe, a lida não é fácil: ele acorda às 5h30 para começar a cozinhar. Das 10h40 às 14h, trabalha nas vendas na UnB.

Rotina
Ao voltar para casa, passa a adiantar os pratos do dia seguinte e só para às 22h. No tempo livre, ainda precisa fazer compras de peso. ;São 75kg de arroz, 22kg de feijão, 13kg de macarrão, 10kg de farinha, 100 frangos;; Na hora de comprar, Edu tem a máxima: ;Não vale a pena economizar na qualidade, sob o risco de perder a clientela;. É a esse fator que ele atribui, inclusive, o sucesso do negócio. ;Não meço gastos e esforços para fazer um bom alimento. O preço da carne pode estar alto, que coloco picanha, não tem problema. Não dá para desleixar;, justifica. É claro que o jeito de Edu para a cozinha também ajuda. ;Minha mãe é mineira, então minha comida é puxada para esse lado. As pessoas elogiam muito meu tempero, uso cebola, alho, coloral, chimichurri, páprica;, revela.


Pai de um rapaz de 17 anos, Edu não tem folga das penelas nem nos fins de semana. ;Quando estou de folga, o pessoal sempre pede para eu cozinhar, numa chácara, num clube;, afirma. Hoje em dia, ele pegou tanto a prática da rotina que nem experimenta mais o que prepara. ;Mesmo assim, as receitas saem sempre com o mesmo gosto;, observa. Além de alunos e funcionários da UnB, profissionais de outros órgãos, como o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), se tornaram clientes fiéis de Edu. ;É uma clientela fidelizada, a maioria das pessoas compra de mim todo dia. Muitos vêm de longe e pedem para eu começar a vender em outros pontos.; Para garantir que isso continue assim, o comerciante oferece um cartão fidelidade: a cada 10 marmitas, uma sai de graça.

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