Três perguntas/Silviano Santiago

Três perguntas/Silviano Santiago

postado em 12/11/2017 00:00
Stella Manhattan é muito atual ao tratar de conservadorismo e radicalismos nos anos 1960, mas que agora estão de volta à realidade social e política brasileira. Você se preocupa com o fato de o romance ser ainda tão atual?
Por um lado, acho muito bom que a gente esteja discutindo essas questões. É interessante por uma razão simples: significa que houve ganhos extraordinários durante as décadas finais do século 20 e o início do século 21. Agora, o que é triste é que há um retorno do conservadorismo e todas essas conquistas feitas a duras penas estão sendo jogadas na lata de lixo. É como se não tivesse havido, como consequência de movimentos étnicos, como a questão do negro nos Estados Unidos, ou de movimentos estudantis como na Universidade de Berkeley e em 1968 em Paris, como se esses movimentos não tivessem sido aceitos pela sociedade em geral e difundidos até mesmo pelos governos. O que se perde são conquistas libertárias.


O que houve para ficarmos mais intolerantes e estarmos em vias de perder essas conquistas?
O que houve é que, a partir de um determinado descontrole, possivelmente a passagem do poder nos Estados Unidos para a China, da eleição de Trump, da imigração em massa dos povos colonizados para a Europa, essas sociedades que eram modelos libertários se tornaram intolerantes, recriando a antiga noção de diferença que estava abolida. A diferença hoje é, de novo, o modo como a sociedade se organiza. EUA, França, todas são sociedades completamente divididas onde a intolerância surge como política.


No livro, o narrador elocubra que é um erro acreditar na evolução da humanidade como se fosse uma linha reta percorrida pelo homem ad infinitum. Como sair dessa armadilha?
Uma das formas é dando total liberdade ao que existe de mais extraordinário no ser humano, que é a criação. A criação da própria vida. A vida é uma coisa a ser inventada e que cada um inventa sua própria vida. E pode também se manifestar através de envolvimentos políticos. Qualquer pessoa que não tenha medo de ser feliz é revolucionária hoje em dia. É dessa forma que você começa a escapar inexorabilidade de apresentar o fim sempre como apocalíptico.


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