O debate da enganação cada vez mais intenso

O debate da enganação cada vez mais intenso

Bertha Maakaroun
postado em 13/11/2017 00:00
 (foto: Geraldo Magela/Agência Senado)
(foto: Geraldo Magela/Agência Senado)

No Brasil, as fake news têm sido usadas por todos os partidos, da direita à esquerda, crescentemente nas eleições gerais e municipais a partir de 2008. ;Nas eleições de 2018, o volume de fake news vai superar de longe o de todas as eleições anteriores;, acredita a cientista política e pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Helcimara Telles. Cresce a tecnologia com emprego de robôs para impulsionamento nas redes e acumula-se expertise para ataques cognitivos sofisticados, porque são dirigidos aos segmentos de eleitores segundo as preferências registradas nos algoritmos.


;Movimentos on-line de extrema-direita, que, em nome de uma radical liberdade de expressão, professam valores de intolerância, discursos de ódio, extremamente dogmáticos e negando qualquer afirmação que possa ser comprovada em métodos científicos, crescem no mundo todo;, avalia Helcimara Telles. ;No Brasil, esses grupos contestam que tenha existido uma ditadura no país, espalham que o nazismo foi um fenômeno da esquerda, interpretam fatos segundo o seu interesse, atacam movimentos feministas e fazem a caricatura dos estudos de gênero, cooptando muitos jovens pelo desalento com a representação política e pela linguagem que utilizam na internet;, diz a pesquisadora.


Em um contexto de polarização política ; em que extremos estão motivados ao ativismo ;, o Brasil tem todos os ingredientes para a ebulição do caldo da insegurança sobre o que venha a ser verdade e mentira nas eleições de 2018. Além de os usuários das redes interagirem, preferencialmente, com pessoas com quem partilham ideologias e visões de mundo ; formando as chamadas bolhas narrativas ;, os brasileiros estão, ao lado dos chilenos, entre os usuários das redes que mais compartilham informação no mundo: 64% têm esse tipo de engajamento, segundo pesquisa feita este ano com 70 mil pessoas em 36 países pela Reuters Institute for the Study of Journalism da Universidade de Oxford, na Inglaterra. Ao mesmo tempo, 65% usam smartphones, portanto, levam o clique e a possibilidade de compartilhamento para onde vão. E mais: 60% acreditam nas notícias com as quais interagem, que chegam principalmente pelo Facebook e pelo WhatsApp.


;Nesse cenário de bolhas narrativas, em que as fake news pipocam e se reproduzem indiscriminadamente por instant messages com notícias que as pessoas acreditam ser verdadeiras, podem ser produzidos mundos alternativos, e realidades paralelas, que permitem que as pessoas acreditem que a terra é plana;, afirma Marco Konopacki, administrador e cientista político do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio. ;As pessoas são envolvidas numa bolha de argumentos e atacam qualquer um que apresente informação contrária. Esse comportamento explica, por exemplo, a formação de grupos radicais que acreditam que a Terra seja plana e mesmo as distorções em torno dos estudos de gênero;, acrescenta.


A reforma política aprovada pelo Congresso traz poucas mudanças relacionadas ao uso da internet e de redes sociais para as eleições de 2018. A principal delas: permite que candidatos impulsionem as suas postagens. ;A legislação permite que o candidato, o partido e as coligações paguem as redes sociais para impulsionar o seu conteúdo. É um gasto que tem de ser declarado na prestação de contas;, informa Edson Resende, coordenador da Coordenadoria Estadual de Apoio aos Promotores Eleitorais (Cael). As resoluções do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) vão regulamentar esses novos dispositivos.


A legislação em vigor até o pleito passado vedava qualquer tipo de propaganda paga na internet. ;Agora é possível pagar não só pelo impulsionamento nas redes sociais, como também pelo mecanismo de busca do Google;, afirma Diogo Cruvinel, secretário de Gestão de Atos partidários e da Informação do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG).

O que são fake news?

São notícias falsas produzidas e propagadas via redes sociais. São programadas para influenciar e manipular a opinião de usuários da rede, com objetivos estratégicos de mobilização contra temas da pauta, candidatos e partidos políticos. Além disso, esse conteúdo é promovido de tal forma a dissimular o seu caráter de propaganda negativa, apresentando-se como compartilhado por terceiros e produzidos por fontes que se apresentam como confiáveis.

Um termo, muitos significados
Os usuários das redes digitais atribuem diferentes significados ao termo fake news. Segundo pesquisa realizada pela Reuters Institute for the Study of Journalism, os usuários das redes definem fake news de formas diferentes:
1) Notícias inventadas para ganhar dinheiro e desacreditar terceiros;
2) Notícias que têm uma base factual, mas que são reinterpretadas e manipuladas para se adequar a determinada agenda;
3) Notícias com as quais as pessoas não se sentem confortáveis e não concordam.

Como se proteger
As pessoas tendem a compartilhar informações com as quais se identificam. Como muitas vezes já estão ;contaminadas; por falsas premissas, continuam a repassar notícias falsas sobre aqueles temas.

Veja como identificar notícias falsas em quatro rápidos passos:
1) Nunca compartilhe sem checar. Dê uma busca sobre o tema, repetindo palavras-chaves.

2) Procure a fonte de informação: quem assina e o site. Pesquise o histórico de ambos. Material sem fonte é material suspeito.

3) Verifique a data e o local da publicação para avaliar se o tema não está sendo reintroduzido nas timelines das redes para engrossar alguma pauta política.

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