Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Mariana Niederauer >> mariana.niederauer.df@dabr.com.br
postado em 13/11/2017 00:00
A nossa orquestra

;Prestigiem essa orquestra, que é de Brasília, é desta cidade, é do povo: é de vocês;, clama o maestro antes de dar início ao concerto e logo após a apresentação do hino nacional, ao som de violinos, violoncelos, contrabaixos, clarinetas, trompetes e tantos outros instrumentos. O telão branco ao fundo contrasta com o conjunto de músicos vestidos de preto. Distante do Teatro Nacional Claudio Santoro, sua casa e lugar natural, a Orquestra Sinfônica da cidade encontra (e transforma) no Cine Brasília um verdadeiro ponto de cultura. Diverso, dinâmico, plural.

Assistir a um concerto em Brasília é, por esses e por outros motivos, uma experiência completa de vivência da cidade, que ultrapassa a esfera cultural. O ambiente acolhe, por ser nosso, mas sem deixar de lado o rigor. Entra-se de graça, apenas com a vontade de apreciar o espetáculo. Não se admite, no entanto, atrasos ou levar qualquer alimento.

Até o músico é barrado com um copo de água na mão. ;Assim não entra;, afirma, categórica, a responsável pelo acesso à sala. ;Não vou atirá-lo em ninguém, garanto;, argumenta o músico, com sua gravata borboleta, segurando o copo de plástico. ;Ele é músico;, endossa o representante da Secretaria de Cultura, ao que o homem tem a entrada liberada, sob protestos: ;É preciso avisar;, diz a mulher, compenetrada na tarefa de garantir um espetáculo impecável.

Mas as imperfeições; O que seria do concerto de uma orquestra brasileira que vence adversidades diárias e se apresenta em um cinema não fossem as imperfeições? Antes de a apresentação começar, um locutor afável pede gentilmente que os celulares permaneçam desligados ou programados para não incomodar.

Explica-se: a performance que se seguirá exige dos músicos extrema concentração, qualquer desvio de atenção, portanto, poderá comprometer o resultado final. Por esse mesmo motivo, nosso narrador pede a gentileza de pais que levaram os filhos pequenos (e que bom que o fizeram) se acomodarem próximo a uma das saídas, para que a calma seja brevemente restabelecida e possam voltar rapidamente ao espetáculo.

E é assim que o concerto começa, de maneira espetacular. Numa pequena pausa na apresentação de A Flauta Mágica, de Mozart, um espectador ensaia uma salva de palmas, logo abafada pelas próximas notas. Em outro respiro da orquestra, o choro do bebê complementa o acorde do violino.

Momentos depois, a Flauta Mágica é personificada por Sefika Kutluer, flautista solista turca reconhecida internacionalmente. Em desempenho impressionante, ela tira notas do fundo do pulmão, com elegância que completa o brilho do instrumento. É aclamada de pé por uma plateia estarrecida com o solo. A mesma que pode não saber o momento exato de aplaudir, mas com certeza reconhece o talento e expressa como nenhuma outra a emoção provocada por uma imersão cultural.

Amanhã é tempo de aplaudir e prestigiar o que é nosso novamente: a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacinal Claudio Santoro apresenta o projeto Música na Estrada, com obras do francês Claude Debussy e do russo Tchaikovsky, às 20h, no mesmo Cine Brasília (106/107 Sul).



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