Gravidez fica para depois

Gravidez fica para depois

Levantamento do IBGE aponta uma redução de 5,1% nos nascimentos de 2015 para 2016. Incidência da zika e crise econômica são apontadas como as principais causas. Especialista alerta para o risco de aumento de casos da doença com a chegada das chuvas

» Ingrid Soares Especial para o Correio
postado em 15/11/2017 00:00
 (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)


Ter filhos está cada vez mais fora dos planos de muitos brasileiros, pelo menos por agora. É o que aponta pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgada ontem. No estudo, a doença zika e a crise econômica são apontadas como as possíveis causas de os casais adiarem a gravidez. Segundo os dados, em 2016, foram registrados 2.793.935 nascimentos no Brasil, uma queda de 5,1% em comparação com 2015 (veja quadro abaixo). É a primeira redução que ocorre desde 2010. Pernambuco, um dos estados mais atingidos pela zika, teve 10% a menos de nascimentos, o maior percentual anotado em todo o país no ano passado.

A administradora Bárbara Cavalcante, 23 anos, e Wesley da Costa, 30 anos, fazem parte do time que ajuda a endossar essa estatística. Moradores de Santa Maria, casados há dois anos, eles afirmam que desejam ter dois filhos, mas se preocupam com a incidência da doença e querem passar em um concurso público antes de aumentar a família. ;No ápice da doença, além do remédio, também utilizamos métodos de barreira e nos precavemos muito por conta da zika. É uma preocupação ainda constante, pois a doença está por aí. Por outro lado, também precisamos de estabilidade econômica e queremos curtir a vida a dois;, pondera Bárbara.

O mestre de obras Salvador Filho de Oliveira, 36 anos, e a cozinheira Maysara França, 27 anos, namoram há três anos. Eles têm planos de casar e ter filhos, mas por conta da zika e do orçamento apertado decidiram deixar para o ano que vem. ;Apesar de não termos mais tanta notícia dessa doença como antes, ainda existe o perigo e ficamos preocupados da criança nascer doente. Nos cuidamos e também usamos tela na casa e evitamos viajar para áreas com incidência da doença. Sem contar que ter uma criança é uma responsabilidade grande e está muito caro;, afirma Salvador.

Riscos

Para Hemerson Luz, especialista em doenças infecciosas, a zika teve grande impacto no comportamento social e ajudou na diminuição dos nascimentos. ;Acredito que, além da crise, as pessoas se conscientizaram de que não podem se descuidar, pois o vírus se alimenta do sistema nervoso e traz severas consequências para o bebê, com atraso no desenvolvimento motor, cognitivo e mental.;

Com a chegada das chuvas, Hemerson alerta que a tendência é que tenha um aumento da proliferação do mosquito Aedes aegypti, transmissor da doença. ;Não dá pra descuidar. Tem que usar roupas longas, que protejam a perna e os braços e não deixar água parada para o mosquito;, alerta.

A Secretaria de Saúde do DF informa que foram notificados 247 casos suspeitos da doença aguda do zika, dos quais 191 (77%) residem no Distrito Federal. A maioria dos casos prováveis estão notificados em Samambaia, Santa Maria, Gama e Taguatinga. No Brasil, até janeiro, foram notificados à Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde 3.530 casos suspeitos de microcefalia, identificados em 720 municípios. Pernambuco registrou o maior número: 1.236. A pesquisa do IBGE mostra também que os casamentos tiveram redução de 3,7% de 2015 para 2016 e que os divórcios aumentaram 4,7% em relação ao mesmo período.
Os dados

Nascimentos ocorridos e registrados no
mesmo ano no Brasil e em cada região

Ano Brasil
2010 2.747.257
2011 2.808.922
2012 2.812.416
2013 2.821 200
2014 2.904.964
2015 2.945.344
2016 2.793.935

Variação 2015/2016 -5,1%

Ano Norte
2010 262.175
2011 274.785
2012 277.669
2013 284.308
2014 296.101
2015 295.298
2016 283.066

Variação 2015/2016 -4,1%

Ano Nordeste
2010 798.201
2011 808.415
2012 792.117
2013 787.249
2014 803.556
2015 822.070
2016 777.092

Variação 2015/2016 -5,5%
Ano Sudeste
2010 1.106.182
2011 1.131.906
2012 1.141.985
2013 1.133.336
2014 1.166.985
2015 1.177.165
2016 1.112.101

Variação 2015/2016 -5,5%

Ano Sul
2010 364.056
2011 373.146
2012 377.097
2013 385.932
2014 395.410
2015 404.986
2016 389.600

Variação 2015/2016

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