Agricultura e economia: contribuição muito além da desinflação

Agricultura e economia: contribuição muito além da desinflação

Marcelo Fernandes Guimarães Economista. Trabalha no Departamento de Crédito e Estudos Econômicos, da Secretaria de Política Agrícola, do Ministério da Agricultura
postado em 15/11/2017 00:00
Muito se tem falado sobre a queda da inflação em 2017 e a considerável contribuição proporcionada pela queda dos preços dos alimentos. Esse comportamento não nos surpreende, na medida em que a agricultura vem há tempos demonstrando que os investimentos e políticas públicas, aplicados neste setor, podem resultar em substanciais retornos econômicos à sociedade, principalmente por meio da crescente oferta de alimentos, energia e matérias-primas industriais. Mais recentemente, no entanto, o que se destaca é a contribuição que a agricultura vem dando para a retomada do crescimento econômico.

Após sete anos seguidos ;puxando para cima; o IPCA, o subgrupo ;Alimentação no domicílio; apresentou uma variação negativa de 5,3% no acumulado em 12 meses até setembro de 2017, contribuindo de forma significativa para a redução do índice geral, já que o peso desse subgrupo na composição do IPCA é de cerca de 17%.

Muitos economistas vêm relatando esse fenômeno, procurando inclusive quantificar a contribuição direta da queda dos preços dos alimentos para o processo de desinflação vivenciado pelo Brasil ao longo dos últimos meses. Borça Júnior, em artigo, estimou que se o IPCA de alimentos tivesse seguido seu padrão sazonal médio ao longo de uma década, entre 2006 e 2015, sua variação acumulada em 12 meses até agosto teria tido uma alta de 8,1% e não uma queda de 5,2%. Dessa forma, conclui que o IPCA acumulado em 12 meses até agosto de 2017 deveria estar em 4,77%, ou seja, 2,31 pontos percentuais acima do efetivamente ocorrido. Luis Eduardo Assis, em uma análise comparativa com os 12 meses anteriores a agosto de 2016, também aponta a contribuição como superior a 3 pontos percentuais em relação à variação acumulada com base em agosto de 2017.

No entanto, a contribuição que a agricultura vem oferecendo à recuperação da economia neste momento vai muito além da simples queda dos índices de inflação. Uma das mais importantes talvez seja o fato dela possibilitar uma redução mais expressiva da taxa Selic, beneficiando todos os setores da economia brasileira. De fato, se não tivesse havido uma queda de preços de alimentos tão acentuada, muito provavelmente a taxa básica de juros do Banco Central não poderia ter sido reduzida na magnitude em que ocorreu, uma vez que a inflação não teria caído tão rapidamente e nem de forma tão expressiva.

Essa queda na Selic, por sua vez, também possibilita a redução com o custo da dívida pública a ela indexada. Segundo estimativas do BC, cada queda de 1 ponto percentual na taxa básica, mantida por 12 meses, reduz a dívida em cerca de R$ 22 bilhões. Some-se a isto, embora em dimensões bem mais modestas, a redução no custo da dívida pública diretamente indexada ao IPCA (como o caso das NTN-B), cujo total, segundo dados da STN, alcançava cerca de R$ 1 trilhão ao final de 2016. Dessa forma, considerando-se o peso atual desse subgrupo (17,03%) e a variação acumulada nos doze meses anteriores a setembro (5,3%), a redução dos preços dos alimentos proporcionou uma economia superior a R$ 91 milhões aos cofres públicos em um ano.

Outro ponto de expressiva contribuição diz respeito ao desempenho do PIB da agropecuária. Embora apresente uma participação relativamente pequena no PIB (4,7% em 2016), o setor agropecuário se caracteriza por um alto nível de encadeamento com outros setores produtivos. Dessa forma, puxado pela safra recorde colhida neste ano, a agropecuária apresentou um crescimento acumulado de 15% no primeiro semestre de 2017, comparado ao mesmo período do ano anterior. Vale lembrar que no resultado do primeiro trimestre, quando cresceu 15,2% em relação ao mesmo período em 2016, o setor respondeu por 0,8 ponto percentual do 1,0% de crescimento do PIB de janeiro a março na comparação com o último trimestre de 2016.

Por fim, mas não menos importante, cabe mencionar os superavits comerciais agrícolas e seus efeitos sobre a balança comercial, o balanço de pagamentos e a própria taxa de câmbio; esta última também com impactos relevantes sobre os índices de inflação e sobre as dívidas e instrumentos financeiros indexados ou sob a influência do dólar.

Constata-se assim que, além do papel normalmente desempenhado pela agricultura, o que se destaca nesse momento é a alavancagem ao processo inicial de recuperação da economia. Resta torcer para que ao longo desta safra 2017/18 o clima nos seja novamente favorável, proporcionando uma colheita tão farta quanto na safra passada, rendendo bons frutos econômicos também ao longo de todo o ano de 2018.






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