Tantas palavras

Tantas palavras

Por José Carlos Vieira Esta seção circula de terça a sexta / cartas: SIG, Quadra 2, Lote 340 / CEP 70.610-901
postado em 15/11/2017 00:00
Também já fui brasileiro

Eu também já fui brasileiro

moreno como vocês.

Ponteei viola, guiei forde

e aprendi na mesa dos bares

que o nacionalismo é uma virtude.

Mas há uma hora em que os bares se fecham

e todas as virtudes se negam.


Eu também já fui poeta.

Bastava olhar para mulher,

pensava logo nas estrelas

e outros substantivos celestes.

Mas eram tantas, o céu tamanho,

minha poesia perturbou-se.


Eu também já tive meu ritmo.

Fazia isso, dizia aquilo.

E meus amigos me queriam,

meus inimigos me odiavam.

Eu irônico deslizava

satisfeito de ter meu ritmo.

Mas acabei confundindo tudo.

Hoje não deslizo mais não,

não sou irônico mais não,

não tenho ritmo mais não.


Carlos Drummond de Andrade



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