Governo refaz conta e mostra otimismo

Governo refaz conta e mostra otimismo

Durante jantar na residência da Câmara, Temer e aliados fecham a planilha de apoios parlamentares. Pelos cálculos, o Planalto espera obter mais de 320 votos na semana do dia 11. Próximas horas serão decisivas para testar força e avaliar chances reais de aprovação

Alessandra Azevedo
postado em 04/12/2017 00:00
 (foto: Pedro Ladeira/Folhapress

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(foto: Pedro Ladeira/Folhapress )

Com o calendário cada vez mais apertado, o governo toca as últimas rodadas de conversa para tentar salvar a reforma da Previdência. Após reuniões com aliados, na tarde e na noite de ontem, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse acreditar ser possível conseguir o apoio que falta, apesar das eleições batendo à porta, e afirmou que decidirá, até quinta-feira, se pautará ou não a matéria no plenário. À noite, depois de jantar na residência oficial da Câmara, do qual participaram o presidente Michel Temer, ministros e líderes do PSD, do DEM, do PMDB, do PR e do Solidariedade, Maia disse ter ;uma expectativa muito grande de conseguir reunir os votos desses partidos, que somam mais de 320;.

A aposta do governo é no fechamento de questão, que é quando o partido decide que todos os deputados devem votar da mesma forma. No caso da Previdência, garantir o voto ;sim; de parlamentares indecisos poderia permitir a aprovação. O presidente da Câmara afirmou que ficou claro, no jantar, o compromisso dos líderes com a reforma, mas não deu informações sobre o fechamento de questão do DEM. Há grandes chances de que o PMDB garanta os votos dentro do partido, como estava decidido a fazer em maio, antes de a reforma ficar em segundo plano diante das denúncias contra Temer.

Para o governo, essa estratégia tem dois efeitos muito benéficos: além de garantir votos pela ;obrigação;, também tem o ;efeito manada;. ;Muitos deputados só votam a favor se perceberem que há número suficiente para aprovar. Um partido fechar questão pode levar outros a fazerem o mesmo;, disse uma fonte do governo.;Até quarta-feira, serão dias mais de contagem de votos e de tentar fechar questão;, afirmou outro aliado do governo. Sem a garantia desses votos, será praticamente impossível pautar a matéria, o que torna o fechamento ;essencial;. ;O que estiver ao meu alcance, nós vamos fazer para que a gente aprove essa matéria;, garantiu Maia. ;Se não conseguirmos os votos, os contrários terão que explicar que estão a favor dos privilégios;, disse o deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS), vice-líder do governo na Câmara, ao chegar na residência oficial.

Mudanças
Durante o jantar, Temer discutiu com aliados o que mais ainda pode ser feito para angariar os votos, já que as mudanças promovidas no texto não tiveram tanto impacto entre os deputados quanto se esperava. O placar continua estagnado: há semanas, a reforma conta com o apoio de, no máximo, 240 deputados nas contagens mais otimistas. Para atingir uma margem aceitável que permita que a Proposta de Emenda à Constituição n; 287 seja colocada em pauta, falta o apoio de, pelo menos, mais 80.

O fato de o placar não ter se movido desde que o relator, Arthur Maia (PPS-BA), anunciou mudanças expressivas no texto, em 22 de novembro, mostra que o obstáculo não é mais o conteúdo. ;De um tempo para cá, a resistência não e mais do ponto de vista técnico. É questão de natureza política mesmo;, disse uma fonte do governo. Um grande desafio continua sendo fazer com que os deputados, que já estão convencidos da necessidade de se reformar as regras previdenciárias, entendam que a conveniência de se deixar para depois, para não arcar com o ônus político de se votar a matéria, pode ter efeito reverso. Eles terão que encarar uma reforma ainda mais dura no próximo governo, já que boa parte das concessões foi feita apenas para conseguir votos.

Corrente

Mas, nos bastidores, deputados já admitem que preferem votar uma reforma depois das eleições, mesmo que ela seja mais dura, do que colocar as mãos em qualquer texto agora, por mais enxuto que seja. Essa corrente afirma que, apesar das dezenas de concessões feitas na PEC, mexer na Previdência Social continua sendo um tema impopular e geraria inevitáveis repercussões eleitorais.

Boa parte deles concorda com a necessidade de se reformar o sistema e entende que os pontos abordados atualmente, como idade mínima e equiparação de regras entre servidores públicos e iniciativa privada são essenciais, mas poucos estão dispostos a arcar com os custos políticos. ;Os deputados só votam alguma coisa se receberem, em troca, o suficiente para cobrir o desgaste e um pouco mais;, avaliou o diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Antônio Augusto de Queiroz. Não importa o quão convincente seja o discurso, o governo, hoje, não tem capacidade fiscal para reverter o placar. A situação ficou ainda mais limitada devido ao alto gasto para enterrar as duas denúncias contra o presidente Temer na Câmara, ao longo do ano. As próximas horas serão decisivas.

;Há uma expectativa muito grande de conseguir reunir os votos dos partidos, que somam mais de 320 apoios;,
Rodrigo Maia, presidente da Câmara

Análise da notícia

Entre dois polos


Luiz Carlos Azedo
A pesquisa DataFolha divulgada sábado, em todos os cenários, mostra a consolidação do favoritismo da candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 34%, e a de Jair Bolsonaro (PSC, mas deve se filiar ao Patriota, antigo PEN), com 17%. Ambos exploram o medo recíproco de seus eleitores para consolidar essa polarização à ausência de uma alternativa vigorosa ao centro. Com 9% de intenções de voto, Marina Silva (Rede) demonstra capacidade de resiliência. A grande frustração até agora é a candidatura do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, estacionada na faixa dos 6%, empatado com Ciro Gomes (PDT), num cenário repleto de candidatos.

Joaquim Barbosa (sem partido, mas de namoro com o PSB), com 5%; Álvaro Dias (Podemos), com 3%; Manuela D;Ávila (PCdoB), com 1%; Michel Temer (PMDB), com 1%; Henrique Meirelles (PSD), com 1%; e Paulo Rabelo de Castro (PSC), com 1%. Num cenário mais conservador, sem Joaquim Barbosa, o quadro se altera pouco: Lula (PT), 36%; Jair Bolsonaro (PSC), 18%; Marina Silva (Rede), 10%; Geraldo Alckmin (PSDB) e Ciro Gomes (PDT), 7%; Álvaro Dias (Podemos), 4%; Manuela D;Ávila (PCdoB), 1%; Paulo Rabello de Castro (PSC), 1%; Guilherme Boulos (sem partido), 1%. A rigor, nenhuma das candidaturas é removível, com exceção da petista, por causa da Operação Lava-Jato, mas essa é uma variável fora da política partidária.

De todos os candidatos que poderiam postular a construção de uma alternativa ao centro, o que dispõe de paridade estratégica com Lula ; tempo de televisão, recursos do fundo partidário, bases partidárias, reduto eleitoral consolidado ; é Geraldo Alckmin, que vai para a sua segunda disputa presidencial. Em tese, seria a candidatura organicamente mais robusta contra o petista, mas isso não se traduz em termos eleitorais

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