A crueldade em números

A crueldade em números

Cida Barbosa cidabarbosa.df@dabr.com.br
postado em 04/12/2017 00:00

A calamidade persiste no Brasil, a gente sabe disso, mas faltava atualizá-la em números. Não falta mais. De acordo com levantamento divulgado pelo IBGE na semana passada, 1,8 milhão de crianças e adolescentes trabalhavam no país em 2016. Desse contingente, 30 mil tinham entre 5 e 9 anos, e 160 mil, de 10 a 13 anos. Eles labutavam nas mais diversas áreas: agricultura, indústria, construção, comércio, serviços domésticos.

São dados aterradores. Imagine crianças em penosos trabalhos em olarias, corte de cana, quebra de pedras, carvoarias. É uma crueldade, uma vergonha para o nosso país. Elas deveriam estar brincando, se dedicando aos estudos, descansando, e não em jornadas por vezes exaustivas até mesmo para adultos.

O trabalho infantil é criminoso. Impacta no desenvolvimento físico e mental dos menores. A depender da atividade que exercem, estão sujeitos também a deformações físicas, amputações, doenças, toda a sorte de acidentes, abusos sexuais e psicológicos e até morrer. Em setembro, um adolescente de 14 anos foi atropelado por um caminhão enquanto trabalhava no lixão da Estrutural com o pai, catador. Ele não resistiu aos ferimentos.

Há outra terrível vertente aí. A miséria, que empurra os pequenos para a exploração, acaba sendo perpetuada justamente pelo trabalho precoce. Cansados, quando eles não abandonam a escola, pouco aproveitam as aulas. No futuro, sem a qualificação necessária para brigar por boas vagas, acabam relegados a subempregos. E o ciclo da pobreza se renova.

O Brasil precisa de políticas públicas efetivas de combate a tamanha chaga. São necessários equipamentos e pessoal para ampliar as fiscalizações, campanhas maciças de conscientização.

O maior desafio ao enfrentamento desse mal, porém, é a redução da desigualdade. No ano passado, 1% dos trabalhadores com os maiores salários ganhavam, em média, R$ 27.085, enquanto os de menor renda, R$ 747. E isso para ficar no campo dos que estão empregados, porque, em meio à maior crise econômica em décadas, há 12,7 milhões de desocupados no país.

São problemas complexos de resolver, porque dependem de vontade política, item em falta nos últimos anos. As autoridades constituídas só mostram empenho para legislar em causa própria. Às favas com a população que lhes concedeu o sagrado direito de representá-la. Mas, no ano que vem, tem eleições. Precisamos varrer a famigerada casta cobiçosa e corrupta. É pela política, que hoje tanto nos enoja, que poderemos encontrar soluções para as mazelas nacionais.No cenário em que a miséria aumenta e a fome volta a assolar com força total o nosso país, temos de defender as principais vítimas, que são justamente as mais vulneráveis.

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