Êxodo sem trégua

Êxodo sem trégua

Europa e África tentam frear o deslocamento de pessoas que fogem de guerras e perseguições e morrem aos milhares

» Jorge Vasconcellos Especial para o Correio
postado em 04/12/2017 00:00
 (foto: Taha Jawashi / AFP - 27/06/2017 )
(foto: Taha Jawashi / AFP - 27/06/2017 )


A cada 96 minutos, em algum lugar do mundo, um migrante morre na tentativa de mudar de país para escapar de perseguições, guerras, fome, terrorismo e outras ameaças. O naufrágio em precárias embarcações é a principal causa das 5.136 mortes registradas neste ano, até 1; de dezembro, pela Organização Internacional para Migração (OIM), agência das Nações Unidas. São números de uma crise humanitária que persiste em desafiar a comunidade internacional desde a tragédia de Lampedusa, em outubro de 2013, quando cerca de 360 pessoas morreram em um naufrágio no Mar Mediterrâneo.

Embora a migração tenha sido uma das principais pautas da 5; Cimeira União Africana-União Europeia (UA-UE), que reuniu mais de 80 chefes de Estado na Costa do Marfim, na semana passada, nenhuma medida concreta foi anunciada para atacar as causas do êxodo ou garantir a segurança dos migrantes. O tema da migração foi incluído na pauta de última hora, após a divulgação de um vídeo, pela rede americana CNN, que mostra cenas de um leilão de escravos na Líbia, onde a Guarda Costeira tem sido financiada e treinada por países europeus para barrar os migrantes antes mesmo de entrarem em águas europeias.

Em território líbio, os refugiados sofrem diferentes violações, que incluem tortura e abuso sexual. A Guarda Costeira do país africano é um grupamento descentralizado, frequentemente acusado de cumplicidade com milícias locais e contrabandistas e de violar os direitos humanos dos migrantes. Mesmo assim, firma-se como peça fundamental para a Europa bloquear as fronteiras marítimas.

A OIM informou que, no Mediterrâneo, 3.033 pessoas morreram em 2017 (até 26 de novembro). Há uma semana, foram pelo menos oito na rota do Mediterrâneo Ocidental, que liga o norte da África à Espanha. Na parte oriental, um menino afegão de 10 anos morreu asfixiado em um barco na ilha grega de Lesbos, durante o resgate de 66 migrantes por um navio da Agência Europeia de Guarda de Fronteiras e Costeira (Frontex).

Transparência

;A comunidade internacional precisa discutir formas de solucionar as causas da migração, melhorando a vida das pessoas nos países de origem. É fundamental também, ao mesmo tempo, dar transparência ao processo de imigração e, principalmente, garantir a segurança dos refugiados;, disse ao Correio Joel Millman, porta-voz da Organização Internacional para Migração (OIM). ;Não adianta a Europa fechar as portas para os imigrantes, porque as pessoas não vão parar de se deslocar se não tiverem vida dígna e segura em seus países. Também não adianta bloquear uma rota de navegação, porque as pessoas vão buscar outras rotas, muitas vezes mais perigosas, ficando ainda mais expostas a naufrágios e outras ameaças;, acrescentou.

Para o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), países como Itália e Grécia, principais portas de entrada na Europa para os que emigram da África e do Oriente Médio, têm tido um papel importante no resgate de náufragos e na recepção dos imigrantes. No entanto, a entidade considera que isso ainda é muito pouco para enfrentar os diversos fatores que envolvem a crise migratória.

;Só isso não basta. As pessoas, antes de deixar os países de origem, precisam ter a segurança de que seus pedidos de refúgio serão recebidos e analisados no destino pretendido. Se elas tivessem essa segurança, não se arriscariam tanto;, afirmou Luiz Fernando Godinho, porta-voz do Acnur no Brasil. ;É o desespero que as leva a correr tantos riscos, em embarcações precárias e lotadas, à mercê da ação dos coiotes do tráfico de pessoas;, ponderou. ;Por sua vez, um imigrante que está na Europa precisa ter meios regulares para garantir que seus parentes possam entrar na Europa para visitá-lo. Ou seja, a regulamentação desse processo é fundamental.;

;Não adianta a Europa fechar as portas. As pessoas não vão parar de se deslocar se não tiverem vida digna;
Joel Millman, porta-voz da Organização Internacional
para Migração

;As pessoas precisam ter a segurança de que os pedidos de refúgio serão recebidos e analisados. Se tivessem segurança, não se arriscariam;
Luiz Fernando Godinho, porta-voz do Acnur no Brasilv


; Tragédia que se repete

Migrantes mortos em todo o mundo (período de 1; de janeiro
a 1; de dezembro de cada ano):

2014 4.367
2015 5.623
2016 7.253
2017 5.136
Total 22.379

Migrantes mortos no Mediterrâneo:

2014 3.283 (durante todo o ano)
2015 3.785 (durante todo o ano)
2016 5.413 (durante todo o ano)
2017 3.033 (até 26 de novembro)
Total 15.514

Fonte: Organização Internacional para Migração (OIM)

; Trump fora de pacto da ONU

Os Estados Unidos se retiraram do Pacto Mundial das Nações Unidas sobre proteção de migrantes e refugiados, por considerá-lo ;incompatível; com a política migratória do governo de Donald Trump, informou a missão americana na ONU. A Assembleia Geral aprovou em setembro de 2016 a Declaração de Nova York, para melhorar a proteção e a gestão dos movimentos de migrantes e refugiados. O texto dá mandato ao Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (Acnur) para propor, em 2018, um pacto com respostas para o problema e um programa de ação.

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