No rumo da educação

No rumo da educação

Campanhas de conscientização e ensinamentos oferecidos desde a infância contribuem para a direção mais respeitosa

» ISA STACCIARINI
postado em 04/12/2017 00:00
 (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)


O desafio de reduzir pela metade as mortes no trânsito em uma década esbarra no crescimento da frota anual, no aumento do número de motoristas e na quantidade de habitantes. Esses três fatores influenciam no número de vítimas do asfalto. O tripé para um tráfego mais seguro combina fiscalização, investimento em educação e aplicação de engenharia para melhorar a segurança das vias e projetar pistas mais seguras.

No segundo dia de reportagens da série ;Trânsito: corrida para salvar vidas;, o Correio detalha as principais causas dos acidentes e as iniciativas para reduzir os índices de violência nas pistas. Na casa da família Passos Otto, cada integrante tem o próprio carro. No total, eram quatro veículos até maio. Quando a filha mais velha de Eliane, 53 anos, e Herbert, 60, casou, ficaram três, um automóvel para cada um. A caçula do casal, Viviane, 24, ganhou o carro depois de seis meses de habilitação. A realidade da família reforça o cenário do Distrito Federal. De 2009 a 2016, a frota cresceu, em média, 5,6% ao ano. Além disso, o total de motoristas aumentou cerca de 4% (veja De CNH na mão).

Herbert concorda com a equação de que, quanto mais carro na rua, mais risco de acidente. Mas, na visão dele, as tragédias acontecem em razão do desrespeito. ;Cada um quer reivindicar só o seu direito. Se o outro quer andar mais rápido do que a via permite, você precisa sair da pista. O trânsito de Brasília é cruel;, opina. Por se sentir insegura em pistas mais rápidas, Viviane evita dirigir. ;No Plano Piloto, é mais tranquilo, mas, em outros locais, acho perigoso. Pelo fato de as pessoas sempre estarem com pressa, acabam dirigindo com mais velocidade. O uso do celular também faz diferença, porque, em um segundo de falta de atenção, o trânsito muda a direção;, observa.

No DF, as causas mais frequentes dos óbitos no asfalto são, além do uso do celular, embriaguez ao volante e consumo de outras drogas, como maconha, e a alta velocidade. Segundo o diretor-geral do Departamento de Trânsito (Detran), Silvain Fonseca, alguns condutores que saem para se divertir e consomem álcool têm adotado o comportamento de procurar outros meios de transporte. ;Tem ocorrido uma mudança de comportamento, mas lamento que não seja pelo medo de matar ou de morrer no trânsito, mas, sim, pelo medo de ser preso e de ser autuado;, diz Silvain.

Na avaliação do diretor-geral do Departamento de Estradas de Rodagem do DF (DER-DF), Henrique Luduvice, é preciso eliminar o comportamento arrogante e vaidoso no trânsito. ;É significativo o número de motoristas que se colocam nas rodovias de uma forma absolutamente antidemocrática, desrespeitando regras de convivência e a própria legislação;, pontua.

Educação

Com 6 anos, Sara Campos Eckel sabe o que precisa fazer ao se aproximar de uma faixa de pedestre, mas sempre precisa advertir a mãe. ;Eu faço o sinal de vida, mas a minha mãe esquece;, diz. Na Escola Classe da 410 Sul, a menina aprende sobre as leis de trânsito com atividades lúdicas e brincadeiras. ;Fiz um quebra-cabeça e aprendi que não pode andar de bicicleta sem capacete e joelheira;, conta, durante uma das ações de educação de segurança do colégio.

Brenda Veras de Sousa, 8, está no 3; ano do ensino fundamental e também participa das atividades. Em uma das brincadeiras, aprendeu o significado de algumas placas e da importância da ciclovia. ;Os carros precisam respeitar, porque, senão, batem em quem está de bicicleta;, alerta a garota. Professora do 1; ano da Escola Classe, Josy Gullo ressalta a importância das ações lúdicas. Com elas, as crianças são alfabetizadas sobre trânsito, leis e sinalização. ;Quando os alunos brincam, eles se colocam como partícipes daquele processo.;, detalha.

Desde 2015, começou a ser desenvolvido o projeto Detran nas Escolas, que trabalha a consciência no trânsito e o respeito às leis de forma lúdica e com palestras. ;As cidades são construídas para pessoas. Não para veículos. Quando fazemos essas ações, inserimos crianças e adolescentes no trânsito, assim como nós;, ressalta o pedagogo e chefe do Núcleo de Campanhas Educativas do Detran, Antônio Carlos dos Anjos Filho. ;


Comprometimento
A Década de Ação pela Segurança no Trânsito, de 2011 a 2020, foi lançada em maio de 2011. O programa envolve 10 países que se comprometeram a tomar medidas para prevenir os acidentes que, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU) matam cerca de 1,3 milhão de pessoas por ano no Brasil. A Organização Pan-Americana de Saúde, da Organização Mundial da Saúde, coordena os esforços globais e monitora os progressos a níveis nacional e internacional.


O que diz a lei
O artigo 74 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) prevê que a ;educação para o trânsito é direito de todos e constitui dever prioritário para os componentes do Sistema Nacional de Trânsito;. Assim, cada órgão executor é obrigado a trabalhar ações de conscientização e de educação voltadas para a população. Além de campanhas e mensagens publicitárias transmitidas nos meios de comunicação social, o Código prevê o trabalho nas escolas em todas as séries, por meio de planejamento e ações coordenadas entre os órgãos. Até outubro o Detran-DF gastou, ao todo, R$ 22 milhões com investimentos em educação: R$ 5,1 milhões com campanhas educativas, R$ 1,3 milhão para a implantação da plataforma de educação a distância e formação de professores e R$ 14,2 milhões com publicidade.

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