Uma prova de fogo

Uma prova de fogo

Aposta de Trump em Roy Moore, ex-juiz conservador acusado de pedofilia, à vaga no Senado deve causar danos à imagem do presidente dentro do Partido Republicano. Desempenho na votação do Alabama é visto como teste para a eleição de 2018

Rodrigo Craveiro
postado em 13/12/2017 00:00
 (foto: Jim Watson/AFP)
(foto: Jim Watson/AFP)


O passado e as visões ultraconservadoras de Roy Moore condenam o ex-juiz de 70 anos. Na década de 1970, ele foi acusado de assédio sexual contra duas menores de 14. De tendência homofóbica ; compara a homossexualidade ao bestialismo ; e avesso ao islã, o republicano mereceu apoio explícito de Donald Trump. Enquanto parte dos 3,3 milhões de cidadãos do estado do Alabama escolhiam ontem o substituto do procurador-geral Jeff Sessions para a vaga no Senado, o presidente americano fazia campanha aberta para Moore. ;O povo do Alabama fará a coisa certa. Doug Jones é pró-aborto; fraco no que diz respeito ao crime, ao Exército e à imigração ilegal; ruim para donos de armas e veteranos (de guerra); e contrário ao muro;, escreveu Trump no Twitter. ;Roy Moore sempre votará conosco. Votem em Roy Moore!”, acrescentou.

O resultado do pleito especial no Alabama é considerado determinante para influenciar as eleições legislativas de 2018, as quais renovarão parte do Senado e da Câmara dos Representantes. Uma vitória de Moore tem o potencial de causar um racha no Partido Republicano, desgastar a imagem de Trump e arruinar as pretensões do magnata de tentar um segundo mandato na Casa Branca.

Richard Fording, cientista político da Universidade do Alabama, lembra ao Correio que um grupo menor de republicanos, os moderados e independentes, votaram por Trump, se irritaram com o passado do presidente e estão ainda mais incomodados com o histórico de Moore. ;Além de não apreciarem as acusações de agressão sexual, eles não simpatizam com suas visões extremistas sobre políticas sociais, especialmente em relação aos direitos dos LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros) e das mulheres, e ao aborto;, comentou. ;É uma notícia ruim para os republicanos em 2018, pois todos os candidatos do partido estarão associados a Roy Moore por sua ligação mútua com Trump.; De acordo com o estudioso, muitos senadores e deputados do Partido Republicano têm denunciado abertamente Trump. ;Uma eventual eleição de Moore indubitavelmente dividirá os governistas ainda mais;, alerta Fording.

Moore chegou à seção eleitoral, na localidade rural de Gallant, montado sobre o seu cavalo Sassy e usando chapéu de caubói. ;O país nos observa. Não tenho medo dos jornalistas, devem parar de escrever coisas falsas;, declarou, ao se referir às acusações de pedofilia. Além de retuitar o pedido de Trump, o ex-magistrado se apropriou do slogan de campanha do presidente e disse desejar ;fazer a América grande novamente com o retorno do reconhecimento de Deus; ; uma espécie de cortejo aos protestantes. Por sua vez, o democrata Doug Jones, um ex-procurador-federal de 63 anos, disse que experimentava ;o sentimento do dever cumprido;.

Controle
Fording sublinhou que os republicanos enfrentam dificuldades no Senado, apesar de ainda contarem com maioria na Casa: 51 assentos contra 46 para os democratas e 2 para os independentes. ;Há boa chance de os democratas retomarem dois assentos no Senado, em 2018. A cadeira no Alabama deverá determinar o partido que controlará a Casa. Se os democratas ganharem o domínio, Trump não será capaz de obter nada do Congresso até o fim do mandato;, previu.

O especialista classifica de ;grande erro; o aval do presidente a Moore. ;Trump tem se colocado mais à direita nas políticas e na retórica. Ainda que isso mantivesse a sua base energizada, fez com que ela encolhesse. Uma manobra em direção ao centro teria sido uma estratégia bem melhor.; Segundo Fording, Trump perdeu os democratas moderados e os independentes. Agora, corre o risco de ver naufragar o apoio dentro de seu partido.



Eu acho...

;Trump estava muito hesitante em apoiar Roy Moore. Ele percebeu que cada assento republicano no Senado é importante para qualquer chance da Casa Branca de ter sua agenda aprovada pelo Congresso.;



Richard Fording, cientista político da Universidade do Alabama


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