Cúpula discute Jerusalém

Cúpula discute Jerusalém

Líderes da Organização da Conferência Islâmica reúnem-se na Turquia para coordenar reação à iniciativa americana de reconhecer a cidade como capital de Israel. Mais dois palestinos morrem em Gaza

JORGE VASCONCELLOS ESPECIAL PARA O CORREIO
postado em 13/12/2017 00:00
 (foto: Fotos: Mahmud Hams/AFP)
(foto: Fotos: Mahmud Hams/AFP)


Líderes dos 57 países que integram a Organização de Cooperação Islâmica (OCI) são esperados hoje, em Istambul, para a reunião que deve definir uma resposta conjunta à decisão do presidente norte-americano, Donald Trump, de reconhecer Jerusalém como capital de Israel. O encontro acontece em meio a uma escalada de confrontos que já provocaram pelo menos seis mortes. Ontem, dois militantes do grupo palestino Jihad Islâmica que estavam em uma moto foram mortos durante ataque aéreo atribuído a Israel, que rejeitou a acusação.

;Nossas forças não realizaram qualquer ataque no norte da Faixa de Gaza;, diz um comunicado divulgado pelo Exército de Israel depois de o Ministério da Saúde da Faixa de Gaza informar que o hospital de Beit Lahia, no norte do território, recebeu dois corpos depois de um ataque aéreo israelense. Os protestos e confrontos provocados pela polêmica decisão de Trump se intensificaram a partir da última sexta-feira, no chamado ;Dia de Fúria;, quando dois palestinos foram mortos após tropas de Israel revidarem um ataque.
;Por volta das 18h de sexta-feira, eu estava no banho quando ouvi o Tseva Adom (alarme). Quando saí do banho, ouvi o estrondo do Iron Dome (escudo antimísseis israelense) atingindo um míssil no espaço aéreo acima da minha casa;, contou ao Correio a brasileira Ester (nome fictício), moradora de Sderot, cidade israelense a 1,5 km da Faixa de Gaza. Ela pediu que seu verdadeiro nome não fosse revelado.

Novos desdobramentos da crise devem ser conhecidos hoje, após a reunião de cúpula da OCI. O encontro foi convocado pelo presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, que ocupa a liderança rotativa da organização e procura apresentar-se como principal porta-voz da reação islâmica à mudança da política dos EUA sobre Jerusalém. Nos últimos dias, Erdogan trocou acusações com Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel, país que classificou como ;Estado terrorista; e ;assassino de crianças palestinas;. Em resposta, Netanyahu disse que não conversaria ;com quem bombardeia curdos; e ;apoia terroristas; ; referências à ação da Turquia na guerra civil da Síria.

Erdogan prometeu que ;a cúpula islâmica será um marco; contra a decisão de Washington, apesar de alguns pesos-pesados do Oriente Médio, como Arábia Saudita e Egito, terem se limitado a condenações verbais, sem anunciar medidas concretas. O presidente turco, que lidera um partido islâmico conservador, normalmente critica Israel e não esconde seu apoio ao movimento islâmico palestino Hamas, que não reconhece Israel.

Para analistas, o presidente turco espera obter vantagens eleitorais do embate com Netanyahu , mas isso poderá prejudicar significativamente as relações com Israel. A tensão entre os dois governantes põe em risco a reaproximação ensaiada desde o ano passado. Em 2010 as relações diplomáticas chegaram perto do rompimento após o bombardeio contra a embarcação na qual uma ONG turca tentava enviar ajuda humanitária para Gaza, desafiando o bloqueio naval imposto por Israel.

Segundo Aaron Stein, do Altantic Council, Erdogan pensa nas eleições de novembro de 2019, quando tentará um novo mandato presidencial com poderes reforçados ; nos moldes da reforma política aprovada por referendo em abril passado. ;Ele está em campanha para 2019, para obter os poderes que concebeu para si mesmo;, diz o analista.

Em Bruxelas, para onde viajou em busca de apoio, Netanyahu fracassou na tentativa de convencer a União Europeia (UE) a acompanhar os EUA no reconhecimento da soberania isralense sobre Jerusalém. A alta representante da UE para Política Externa, Federica Mogherini, reafirmou a ;total unidade; dos governos do bloco em torno do ;consenso internacional; ; de que o estatuto final da cidade deve ser definido em acordo com os palestinos, que reivindicam o setor oriental (árabe) como capital de um futuro Estado.



Vozes brasileiras

Em Sderot, temos abrigos em cada casa e apartamento, em cada parada de ônibus. Os palestinos estavam silenciosos por algum tempo, após o reconhecimento de Jerusalém como nossa capital pelos Estados Unidos. Desde sexta-feira, o pessoal de Gaza resolveu nos bombardear de novo. Por volta das 18h de sexta-feira, ouvi o estrondo do Iron Dome (escudo antimísseis israelense) atingindo um míssil acima da minha casa. Houve outro ataque às 22h, mas o artefato atingiu uma rua e apenas destruiu alguns carros. Ninguém ficou ferido. Mas vivemos o cotidiano normal, trabalhando, levando as crianças para a escola, indo ao médico, fazendo compras, encontrando amigos.

Ester (nome fictício), 63 anos


O Hamas tem jogado mísseis todos os dias. Acabaram de lançar um. Mas Israel tem o Iron Dome, que detecta e destrói o míssil no ar. Existe também um aplicativo que avisa onde ele vai cair. Aqui, você aprende a conviver com o risco de um atentado. Não que seja frequente, mas a possibilidade existe, embora eu considere Israel seguro, principalmente Jerusalém. Quando saio na rua, observo o que se passa à minha volta o tempo todo! Hoje (ontem), fui à Cidade Velha e procurei tomar mais cuidado. Jerusalém está cheia de seguranças. Há um cuidado maior que antes, mas Israel sempre conviveu com isso.

Alexandre Distefano, 52


Eu trabalho uma vez por semana em Jerusalém, dentro da Cidade Velha. Lá, o número de soldados e policiais nas ruas aumentou. No sul, não mudou nada. Não senti diretamente qualquer ameaça, mas saí da estação de ônibus central de Jerusalém, no domingo, mais ou menos uma hora antes de um segurança israelense ser esfaqueado por um palestino. A Faixa de Gaza é administrada pelo Hamas, que não reconhece nem negocia com Israel. De lá saem os mísseis que atingem o sul de Israel. E, quando Israel responde, sempre há a possibilidade de entrarmos em um ciclo de violência mais profundo. O governo tem segurado a resposta, mas é difícil saber o quanto isso vai durar. Outras conflagrações começaram assim.

Leonel Caraciki, 30


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