Venezuela mantém brasileiro no cárcere

Venezuela mantém brasileiro no cárcere

Preso em 27 de dezembro, Jonatan Moisés Diniz segue detido na sede central do Serviço Bolivariano de Inteligência, em Caracas. Autoridades o acusam de integrar ONG usada em atividades contra o regime. Diplomatas de Brasília pedem acesso ao catarinense

JORGE VASCONCELLOS ESPECIAL PARA O CORREIO
postado em 06/01/2018 00:00
 (foto: Facebook/Reprodução)
(foto: Facebook/Reprodução)


O Itamaraty conseguiu localizar, na Venezuela, o brasileiro Jonatan Moisés Diniz, de 31 anos, cuja prisão foi anunciada em 27 de dezembro por Diosdado Cabello, número dois do chavismo. O político venezuelano acusou o catarinense de promover atividades contra o governo do presidente Nicolás Maduro. De acordo com informações repassadas pelo Ministério do Poder Popular para Relações Exteriores da República Bolivariana da Venezuela ao Itamaraty, o brasileiro está detido na sede central do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin), em Caracas. Familiares negam o envolvimento de Jonatan em qualquer tipo de conspiração e aguardam a autorização das autoridades venezuelanas para visitá-lo em Caracas.

;Até agora estamos aguardando maiores informações sobre as visitas. Por enquanto, ninguém viajou para a Venezuela. Ainda não temos respostas sobre a liberação para visitas;, disse ao Correio Débora Diniz Ritter, de 36 anos, prima de Jonatan. Segundo ela, o brasileiro, que mora nos Estados Unidos, realizava trabalhos sociais na Venezuela, sem qualquer cunho político.

;A família sempre teve conhecimento de que ele estava lá apenas fazendo caridade. Infelizmente, foi mal interpretado pelo governo venezuelano. Ele pedia ajuda para familiares e amigos, por meio das redes sociais, para arrecadar fundos, a fim de comprar alimentos e brinquedos para crianças carentes e outros necessitados;, disse Débora, acrescentando que a família, agora informada sobre o paradeiro de Jonatan, ;está mais confiante na solução do caso;.

No momento que as relações diplomáticas entre os dois países seguem deterioradas, o governo venezuelano não informou o local exato onde Jonatan está detido à primeira solicitação do Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Na última quinta-feira, uma nota do Itamaraty dava conta de que as autoridades venezuelanas ainda não haviam divulgado dados sobre a situação do brasileiro. A informação de que ele está na sede central do Sebin foi repassada às autoridades brasileiras após a divulgação da nota do Itamaraty. Apelidada de ;a tumba;, a sede do Sebin foi o primeiro local onde autoridades diplomáticas brasileiras procuraram Jonatan ; na ocasião, agentes do órgão negaram a presença dele.

Visita
Ontem, o Itamaraty emitiu novo comunicado, segundo o qual autoridades diplomáticas brasileiras na Venezuela aguardavam autorização para fazer uma visita consular a Jonatan. ;O Ministério das Relações Exteriores da Venezuela confirmou que o cidadão brasileiro Jonatan Moisés Diniz encontra-se em bom estado de saúde, detido em instalação de órgão de segurança local. A Embaixada do Brasil em Caracas reiterou pedido de autorização para visita consular ao cidadão brasileiro, o que poderia ocorrer nas próximas horas. A área consular do Itamaraty está em contato com a família de Jonatan Moisés Diniz;, afirma a nota da chancelaria do Brasil.

O governo da Venezuela não detalhou, oficialmente, a situação processual de Jonatan. Em 27 de dezembro, Diosdado Cabello disse, em seu programa de televisão, que o brasileiro coordenava a organização não governamental Time to change the Earth (;Tempo para mudar a Terra;), utilizada como fachada para a promoção de atividades contra o governo de Maduro nas redes sociais e nas cidades venezuelanas.
Segundo Cabello, a ONG doava alimentos e itens básicos a pessoas em situação de rua com a intenção de obter financiamento em moeda nacional e estrangeira para grupos classificados como terroristas pelo governo da Venezuela. Jonatan também integraria o grupo Warriors of Angels (;Guerreiros dos Anjos;) e teria publicado, na internet, imagens dos protestos contra Maduro que levaram multidões às ruas do país no ano passado.

Cabello também sugeriu o possível envolvimento da CIA ; a agência de inteligência norte-americana ; nas supostas atividades de Jonatan para ;identificar objetivos estratégicos e financiar terroristas;. Membro da Assembleia Nacional Constituinte de Maduro e vice-presidente do governista Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), Cabello disse que, na operação de detenção de Jonatan, os policiais apreenderam 40 camisetas e bonés de cor vermelha, identificadas com o nome da Time to change the Earth.



Impeachment e divergências

As relações entre Brasil e Venezuela foram estremecidas em 2016 com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, visto por Maduro como ;golpe de Estado;. A suspensão da Venezuela do Mercosul pesou no distanciamento. Em dezembro, a Venezuela expulsou o embaixador brasileiro no país, Ruy Pereira, em função da oposição do Brasil à Assembleia Nacional Constituinte. Em resposta, o Itamaraty declarou o encarregado de negócios da embaixada da Venezuela em Brasília, Gerardo Maldonado, como persona non grata.


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