Um espelho de Curitiba

Um espelho de Curitiba

Para o julgamento de Lula no próximo dia 24, forças de segurança gaúchas estudam repetir o aparato montado na capital do Paraná no depoimento do petista ao juiz Moro. Na época, três mil homens foram destacados para cobrir as áreas do Fórum

Simone Kafruni
postado em 06/01/2018 00:00
 (foto: Paulo Pinto/AGPT - 14/9/16
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(foto: Paulo Pinto/AGPT - 14/9/16 )




Desde que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sinalizou que pretende ir a Porto Alegre na semana em que o Tribunal Regional Federal da 4a Região (RS, PR e SC) vai julgar, em segunda instância, os recursos da sua defesa contra a condenação sentenciada pelo juiz Sérgio Moro, as forças de segurança do governo do Rio Grande do Sul estudam como articular uma operação para receber os manifestantes e correligionários do petista, que já marcaram presença na capital gaúcha.

Embora um gabinete de crise tenha sido montado de forma discreta, o pedido do prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Jr (PSDB), feito diretamente à Presidência da República ; de reforço da Força Nacional e do Exército no policiamento da cidade ;, descortinou a estratégia de garantir um aparato parecido com o que foi montando no depoimento de Lula ao juiz Sérgio Moro, em Curitiba, em maio do ano passado. Na ocasião, cerca de três mil homens foram destacados, as áreas do entorno da Justiça Federal foram fechadas, acampamentos, proibidos, e policiais federais, requisitados especialmente para controlar o fluxo no prédio do tribunal.

Depois que o Movimento dos Sem-Terra (MST) confirmou a presença de 2 mil agricultores e a Central Única de Trabalhadores (CUT) divulgou que deve levar 200 ônibus à capital gaúcha, a Justiça Federal do Rio Grande do Sul proibiu acampamentos no Parque Harmonia, que é vizinho à sede do TRF4, em decisão a uma ação do Ministério Público Federal. Porém não impediu manifestações nas proximidades do tribunal. ;A determinação judicial é para controlar o acesso de modo a assegurar a normalidade do trânsito de pessoas e veículos no entorno do tribunal, garantido o direito de manifestação no Parque da Harmonia;, afirmou a Justiça, em nota.

Ontem, a Presidência da República, que protocolou o pedido do prefeito de Porto Alegre na quinta-feira, ainda não tinha informações sobre a análise dos ministérios da Defesa e Justiça, responsáveis pelo Exército e pela Força Nacional de Segurança, respectivamente. No entanto, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, na véspera, chegou a dizer que o reforço seria ;desnecessário;.

Contra-ataque
No contra-ataque, o advogado do ex-presidente Lula, Cristiano Zanin Martins, apresentou ontem, em vídeo publicado nas redes sociais, a estratégia da defesa. Martins disse que os procuradores escolheram o juiz Sérgio Moro para a causa mediante afirmação, na denúncia, de que o tríplex teria sido pago com recursos provenientes de três contratos específicos entre a OAS e a Petrobras. ;A defesa sempre mostrou que não havia nenhuma prova de que valores da Petrobras estavam envolvidos no caso, por isso pediu que a ação penal fosse distribuída para um juiz de Brasília ou do Guarujá;, justificou.

Segundo ele, Moro, ao julgar os embargos de declaração apresentados pela defesa, teria dito que jamais afirmou, na sentença ou em lugar algum, que os valores obtidos pela Construtora OAS nos contratos com a Petrobras foram utilizados para o pagamento da vantagem indevida. ;Essa afirmação deveria gerar o reconhecimento da nulidade do processo, porque a ação foi processada e julgada perante um juiz sem qualquer relação com o caso, como sempre afirmamos;, disse. O advogado também alegou que Moro teria negado a realização de provas periciais contábeis e financeiras.

A defesa de Lula ainda vai argumentar que a condenação tem base em versões diferentes das que constam na denúncia. ;A questão central da denúncia é sobre vantagens indevidas com dinheiro da Petrobras. No entanto, o juiz Sérgio Moro, ao complementar a sentença, exclui a Petrobras;, afirmou. ;O juiz usou uma versão diferente da apresentada pelo Ministério Público na denúncia. Isso também pode anular o processo;, acrescentou.

Paralelamente, o PT anunciou a programação de manifestações ;pacíficas em defesa da democracia e do direito de Lula ser candidato a presidente da República; em Porto Alegre, que prevê vigília, caminhadas, seminários e participação no Fórum Social Mundial. Se a condenação do ex-presidente por Moro for ratificada por um órgão colegiado, como a turma do TRF4 que o julgará em 24 de janeiro, Lula ficará inelegível por oito anos, segundo a Lei da Ficha Limpa. Portanto, sem condições de participar da corrida eleitoral de 2018. O partido, no entanto, realizará, em 25 de janeiro, a Comissão Executiva Nacional ;para reafirmar a candidatura de Lula à Presidência da República;, de acordo com a nota assinada pela presidente da legenda, Gleise Hoffmann.





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