Presidente em xeque

Presidente em xeque

Livro com revelações comprometedoras sobre Trump e a família se esgota em minutos, após lançamento. Autor compara o magnata a uma criança e o chama de "imbecil". Psiquiatra traçou perfil mental do republicano a pedido de legisladores

Rodrigo Craveiro
postado em 06/01/2018 00:00
 (foto: Andrew Caballero-Reynolds/AFP)
(foto: Andrew Caballero-Reynolds/AFP)


As ameaças de advogados da Casa Branca nem de longe parecem ter intimidado o jornalista Michael Wolff. Além de lançar ontem o seu livro Fire and fury: Inside the Trump White House (;Fogo e fúria: Por dentro da Casa Branca de Trump;, pela tradução livre), o escritor fez uma série de críticas ao presidente americano, Donald Trump. ;A única descrição que todos dariam de Trump: eles dizem que é como se fosse uma criança. A necessidade de gratificação imediata. É tudo sobre ele;, afirmou Wolff, em entrevista à emissora de TV NBC. ;Dizem que ele é um imbecil, um idiota. É preciso levar em conta que esse homem não lê, não escuta. Ele é como se fosse uma bola de fliperama, indo para os lados.;

A obra ; que traz detalhes comprometedores sobre a família de Trump ; se esgotou das prateleiras em minutos. No livro, Steve Bannon, ex-estrategista-chefe da Casa Branca, acusa Donald Trump Jr., filho do presidente, de trair a nação, por ter se encontrado com uma advogada russa ligada ao Kremlin, em plena campanha. Também ontem, a TV CNN revelou que, em dezembro, um grupo de parlamentares da Câmara dos Deputados e do Senado se reuniu a portas fechadas com Bandy Lee, psiquiatra da Universidade de Yale, a qual forneceu dados sobre as condições mentais de Trump, mesmo sem tê-lo consultado.

;Eu autorizei acesso zero à Casa Branca (na verdade, o rejeitei muitas vezes) do autor do livro falso! Eu nunca falei com ele para o livro;, garantiu o presidente, por meio de mensagem publicada anteontem no Twitter. ;Cheio de mentiras, distorções e fontes que não existem. Olhem para o passado desse cara e vejam o que acontece com ele e com Steve Trapalhão!”, acrescentou, referindo-se a Wolff e a Bannon.

O jornalista assegurou ter conversado com Trump, durante três horas, antes e depois da vitória nas eleições de novembro de 2016. ;Falei com o presidente, claro. Se ele se deu conta de que era uma entrevista ou não, não sei, mas não estava em ;off; (algo a ser mantido em sigilo);, acrescentou, ao explicar que entrevistou quase 200 fontes que convivem de perto com Trump ;todos os dias;.

Mark J. Rozell, professor de políticas públicas da Universidade George Mason (em Fairfax, na Virgínia), afirmou ao Correio que, para a maioria dos americanos que desaprovam Trump, o livro de Wolff confirma e fortalece sua visão de que o magnata é desqualificado para o cargo. ;Aproximadamente um terço do país, que fortemente apoia Trump, simplesmente não acredita no autor e nas histórias apresentadas no livro;, disse. ;O fato de Trump ter reagido tão rápida e intensamente à obra acabou dando mais visibilidade a Wolff e à editora, mas não definitivamente ao republicano. Isso desvia a atenção de seus esforços em manter o foco da opinião pública sobre sua agenda política.;

Em entrevista ao Correio, por e-mail, Bandy Lee admitiu fortes suspeitas de que Trump não tem capacidade de servir à nação como presidente. ;Por isso, estou apelando por uma avaliação psiquiátrica dele;, disse. Segundo a especialista de Yale, o inquérito liderado pelo procurador especial. Robert Mueller, ;deflagrou uma crise de saúde mental em um líder inapto a lidar com situações de estresse comum, como críticas simples ou notícias pouco claras;. ;Outro ponto de crise foi evitado após a viagem à Ásia, quando ele recebeu deferências cerimoniais e presentes que o mantiveram bem por um tempo. Isso indicou um grande perigo, pois mostrou alguém suscetível a bajulações e à instabilidade;, explicou. ;Outro indício de fragilidade está na forma como faz concessões à própria base política: ele precisa de níveis extraordinários de adulação para a sobrevivência.; Lee lembrou que Trump se tornou mais paranoico ao voltar do giro pela Ásia.

Segundo Rozell, as preocupações sobre a saúde mental de Trump começaram a ser demonstradas durante a campanha de 2016. ;Algumas das asserções bizarras de Trump no Twitter levaram as pessoas a duvidarem se ele é estável. Para ser justo, não acho boa prática um psiquiatra fazer um diagnóstico de alguém que ela nunca tratou como paciente.;

Hillary Clinton
O FBI (polícia federal norte-americana) cedeu às pressões de Trump e de legisladores republicanos e decidiu investigar a Fundação Clinton, uma organização de caridade mantida pelo ex-presidente Bill Clinton e pela mulher, a ex-secretária de Estado Hillary Clinton. De acordo com a rede de TV CNN, o jornal The New York Times e o site político The Hill, as suspeitas recaem sobre supostas doações repassadas à fundação em troca de favores políticos, quando Hillary chefiava a diplomacia dos Estados Unidos, entre 2009 e 2013.



Duas perguntas para



Bandy Lee, especialista em
violência e psiquiatra forense da Universidade de Yale


Quais foram as principais descobertas em relação à saúde psiquiátrica do presidente?
A saúde psiquiátrica de Trump não é minha preocupação principal; mas, sim, os efeitos de sua instabilidade mental sobre a saúde pública e a segurança da população. Trump tem a tendência de ver a violência como uma solução quando está sob estresse e quando deseja restabelecer seu poder. A paranoia e os sentimentos de inadequação fazem isso. E isso aponta para a possibilidade de grande perigo, um risco extremo de uma guerra devastadora ou um Holocausto nuclear, pois ele não terá os meios para pensar sobre as consequências ou sobre os outros. As suas próprias necessidades serão mais urgentes.

De todas as conclusões de sua pesquisa sobre Trump, qual mais lhe preocupa?
O que mais me preocupa é a periculosidade de Trump. Nunca, na história, tantos profissionais em saúde mental vieram falar sobre sua preocupação, sobre qualquer presidente. As coisas são bem mais sérias e perigosas do que as pessoas imaginavam. Pessoas comuns não encontram prejuízos mentais diários e não imaginam quão ruins as coisas podem ser. Quando fizemos o livro The dangerous case of Donald Trump (;O perigoso caso de Donald Trump;), nós prevemos que Trump não se instalaria na presidência da forma com que as pessoas esperavam. Nós dissemos que ele iria piorar, e as previsões se mostraram verdadeiras. Também prevemos que haveria um tempo em que a situação se tornaria uma emergência real. Estamos cada vez mais perto disso. (RC)

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