Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

postado em 06/01/2018 00:00
Cult, a insubstituível

Coisas antigas são capazes de deixar muita saudade, mesmo quando substituídas por algo mais bacana. Como, geralmente, associamos coisas a emoções, podemos sentir falta até da linha fixa que atendia a família inteira na era pré-celular. Afinal, era aquele telefone com um disco no topo que fazia o coração disparar na esperança de que fosse nosso primeiro amor ligando. E um dia foi mesmo! E nós achamos aquele aparelho precário e obsoleto o objeto mais lindo do mundo.

É por simples saudosismo que lamento o fim de várias coisas. Das lojas de disco, da tevê sem controle remoto, da bicicleta sem marcha. Mas, para essas, acho que há substitutos melhores ou, pelo menos, à altura. Já quanto às locadoras de vídeo, não posso dizer o mesmo. E, como o anúncio de fechamento da Cult, na 215 Sul, feito na última terça-feira, Brasília acaba de ficar sem locadoras. Já sinto saudades.

Sim, parte da tristeza vem do saudosismo mais puro. Como era bom andar lentamente diante das estantes até ser fisgado por uma capa estranha, ter uma curta síncope ao perceber que o filme tão aguardado tinha chegado ou perambular pela loja ao lado de uma pessoa querida até encontrar um filme que agradasse a ambos.

Só que as novas tecnologias de streaming ainda não conseguiram substituir uma boa locadora como a Cult. OK, é legal ter à ponta dos dedos uma penca de episódios da série favorita, mas, ao entrar nessas plataformas, somos reféns do gosto da maioria, que envia um comando ao algoritmo, e zaz: obras-primas deixam de estar disponíveis de um dia para o outro.

Minha última ida à Cult foi no fim do ano passado, ao lado da Carol, minha namorada. O que motivou a visita foi uma conversa que lembrou um filme que gerou a frase ;esse eu nunca vi;, que provocou a reação ;nossa, você precisa ver;, que nos colocou no carro rumo à loja, que tinha o filme à nossa espera em uma de suas prateleiras, organizadas ora por gênero, ora por diretores renomados.

Não, o filme que desejávamos não está no Netflix nem faz mais parte dos catálogos das lojas. A Cult, porém, sabia o quanto ele era essencial na história do cinema e, por isso, não poderia faltar em seu acervo, construído ao longo de quase 23 anos. A Cult era fundamental para quem ama o cinema e vive em Brasília. Na verdade, ainda é. Mesmo deixando de existir.




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