A perda de um companheiro

A perda de um companheiro

Morreu, aos 25 anos, o elefante Babu, companhia inseparável de Belinha. Os dois chegaram juntos ao Zoológico de Brasília há mais de duas décadas. A fêmea sentiu a perda, assim como toda a equipe de veterinários e cuidadores

PEDRO GRIGORI ESPECIAL PARA O CORREIO
postado em 09/01/2018 00:00
 (foto: Jardim Zoológico de Brasília/Divulgação - 8/1/18)
(foto: Jardim Zoológico de Brasília/Divulgação - 8/1/18)




O Jardim Zoológico de Brasília está de luto pela perda de um dos animais mais queridos e conhecidos. O elefante Babu, de 25 anos, chegou ao Distrito Federal em 1995. O mamífero viria sozinho do Parque Nacional Kruger, na África do Sul, mas acabou trazendo junto uma companheira inseparável, a elefanta Belinha, da mesma idade. Há 22 anos no Zoo, a dupla morava junta e aproveitava o enorme quintal onde Babu fazia estripulias que viraram a sua marca, como jogar pedras e terra para cima. A parceria do casal terminou na noite deste domingo, quando Babu teve uma parada cardiorrespiratória e morreu.

Na manhã de ontem, Belinha chegou a ver o corpo do companheiro, para entender que ele havia morrido, e não simplesmente ido embora. Ao sair da casa, a elefanta fez algo que nunca havia realizado antes. Pegou uma pedra grande com a tromba e a arremessou no chão. A atitude, vista como uma homenagem ao parceiro, emocionou a equipe de veterinários e cuidadores do Zoológico, que afirmam que a fêmea está enfrentando o luto. Durante todo o dia, ela cheirou os pontos do recinto onde o macho ficava, como se ainda quisesse matar a saudade. ;Ela tem memória de elefante, não vai esquecer dele nunca;, afirmou Alexandro Gomes, cuidador da dupla.

As causas da morte de Babu ainda estão sendo investigadas. No sábado, o elefante estava bem, brincava e se mostrava para os visitantes, como de costume. Mas, na manhã de domingo, acordou indisposto, o que alertou toda a equipe. ;Quando começamos a identificar os sintomas, fizemos os primeiros testes rápidos, de sangue e líquidos, e aplicamos soro e medicação contra a dor e para a proteção do fígado, para evitar que o quadro piorasse. Mas, durante a noite, ele acabou morrendo. Foi uma perda muito repentina, toda a equipe ficou bastante abalada;, conta a superintendente de Conservação e Pesquisa do Zoo, Ana Raquel Gomes Faria.

Perda precoce
Por dia, Babu comia mais de 100 quilos de alimentos. Os pratos preferidos eram verduras e legumes. O animal havia entrado há pouco tempo na vida adulta e, por isso, ainda não havia tido filhotes com Belinha. Geralmente, elefantes criados em cativeiro vivem 60 anos, o que fez a morte de Babu ser tão surpreendente e dolorosa. Ele não apresentava doenças graves e sempre foi visto como um animal saudável. Um grupo de seis veterinários, dois zootecnistas e sete tratadores acompanham a necrópsia e investigam o que pode ter levado o elefante a óbito.

Ele tinha mais de três metros de altura e cerca de seis toneladas. As presas de marfim de Babu ainda eram curtas, devido à idade. Fragmentos da pele e amostras do sêmen dele foram coletados para inclusão no banco de germoplasma do zoológico e, futuramente, Belinha pode ser mãe por inseminação artificial. Órgãos e ossos do animal foram também retirados e serão preservados para pesquisa e, segundo a superintendente Ana Raquel, há interesse em construir um esqueleto com os ossos de Babu.

Solidão
Toda a equipe do Zoológico de Brasília está de olho em Belinha. Após uma vida em dupla, vários cuidados estão sendo tomados para que ela não sofra com a solidão após a perda do companheiro. Um acompanhamento clínico identificará possíveis sintomas semelhantes aos observados em Babu. Ontem, tratadores passaram a noite com ela, para garantir que Belinha não passe mal durante a madrugada e para não deixá-la sozinha nos primeiros momentos sem o parceiro.

;A Belinha sempre foi mais meiga e dócil, podemos dar comida com a mão que ela pega com a tromba e coloca na boca;, conta Magno dos Santos, que cuida da dupla há 12 anos. Já Babu é lembrado como um animal mais agitado e rebelde. ;A Belinha tinha um sentimento de respeito por ele. Eles saíam da casinha às 7h e às 17h. Quando os chamávamos para entrar, a Belinha esperava o Babu entrar primeiro, para só depois ir para o quarto dela;, relembra Alexandro Gomes, cuidador há 15 anos. Mesmo dormindo em quartos separados, apenas uma grade distanciavaos dois. ;Eles dormiam perto, ficavam encostando as trombas, como se estivessem namorando;, diz.

Babu e Belinha são elefantes africanos. A saída da África do Sul para o Brasil se deu devido ao programa de controle populacional do Parque Nacional Kruger, que visa impedir um desequilíbrio ambiental devido a uma quantidade maior de uma determinada espécie. Quando não são encontrados locais adequados para recebê-los, os destinos dos elefantes podem acabar sendo cruéis, muitos são abatidos ou vendidos para caça.

Além da dupla, um terceiro elefante mora no Zoológico de Brasília. Chamado de Chocolate, o animal chegou em 2008, após ser retirado de um circo, onde estaria sofrendo maus-tratos. Desde então, não foi colocado no mesmo recinto de Belinha e Babu, pois elefantes machos costumam brigar quando convivem juntos. ;Há possibilidade de que Chocolate seja transferido futuramente para o mesmo local que Belinha;, adianta a superintendente Ana Raquel.



Curiosidades

Confiras cinco características dos elefantes

; Os elefantes podem sugar até 14 litros de água pela tromba e, depois, podem jogá-la dentro da boca ou usá-la para tomar banho;
; Ao encontrar um elefante conhecido, eles podem enrolar as trombas um no outro, como se estivessem dando um aperto de mãos;
; Um elefante pode levantar até 10 toneladas de peso; ; Como um ótimo nadador, o elefante pode usar a tromba como tubo de respiração;
; A lama serve como um protetor natural para os elefantes, o que explica o motivo de os animais sempre parecerem sujos.

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