360 Graus

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janegodoy.df@dabr.com.br

postado em 09/01/2018 00:00


A ciência e a confiança no futuro

O avanço da ciência, em todas as áreas do conhecimento, resultou nas fascinantes mudanças do mundo. Se antes a ciência favoreceu conquistas na consolidação dos impérios, hoje traz confiança no futuro.

Empreendedores se sentem mais convencidos a investir quando a ciência amplia novos horizontes. É necessário ter confiança no futuro para que o círculo virtuoso de obter lucro para reinvestir seja crescente. O papel fundamental da iniciativa privada no crescimento econômico é fazer crescer o bolo e gerar empregos. Benefícios sociais não podem desestimular o emprego.

Em 1993, decidimos criar uma clínica privada dedicada exclusivamente à mamografia. Ao longo dos anos, como médica e pesquisadora, implantei protocolos de pesquisa para imprimir, na prática médica diária, um cunho científico: todas as pacientes examinadas por médica após o exame de mamografia tiveram coleta da história clínica, correlação e comparação com exames anteriores.

O contínuo gerenciamento estratégico do serviço, o treinamento e a capacitação de pessoal são fatores importantes para o crescimento da empresa. Passamos a oferecer novos métodos de diagnóstico por imagem: ultrassonografias, densitometria óssea e ressonância magnética. Ampliamos a oferta de empregos para técnicos, assistentes, profissionais de TI e outras categorias, entre os quais 22 médicos especialistas.

Os lucros sempre foram reinvestidos para melhoria e ampliação do serviço, constituindo, até hoje, nosso norte.

Muitas pesquisas científicas, sob a forma de teses de mestrado e doutorado apresentadas na Universidade de Brasília, na área de engenharia médica e tecnologia da informação, foram e continuam sendo desenvolvidas a partir de material científico da clínica, sob minha coorientação.

São pesquisas na área de inteligência artificial, com treinamento de redes neurais artificiais para reconhecimento de padrões de malignidade das calcificações de cânceres de mama, o que pode contribuir, no futuro, para grande avanço no diagnóstico precoce. Outras, no campo da robótica, para treinamento de procedimentos virtuais favorecerão o ensino médico na área de biópsias minimamente invasivas.

No futuro, a nanotecnologia aplicada à saúde poderá permitir muito maior acesso a robôs equipados por sensores, de tamanhos reduzidíssimos, na escala mil vezes menor que a espessura de um fio de cabelo para diagnóstico de tumores, doenças cardiovasculares, Alzheimer e Parkinson.

A questão central é: quantos irão se beneficiar com o progresso da ciência no campo da medicina? Os que não puderem ter acesso aos avanços se sentirão prejudicados, ansiosos ou deprimidos.

Campanhas de publicidade, ao incentivar o uso de tecnologias inacessíveis na rede pública, criam expectativas e necessidades não contempladas na maioria da população do país. A frustração diante das práticas adotadas no primeiro mundo aumenta o descontentamento. Resta intervir na bioquímica do cérebro, banalizar o sofrimento com antidepressivos, criar um ambiente de carnaval eterno com glórias ao futebol e olimpíadas.

Não importam os solavancos econômicos e políticos. As pessoas estarão sempre satisfeitas. Mas e se, além da desigualdade de acesso à prevenção e cura das doenças, o progresso na medicina contemplar o aprimoramento das habilidades cognitivas apenas de alguns grupos? O cenário é que poucos terão acesso a chips, de memória e inteligência. Conectar um cérebro a um computador ou criar inteligência artificial no computador pode, no futuro, levar a situações inimagináveis, como as que não se puderam vislumbrar antes da internet.


Janice Lamas
Médica radiologista

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