Saúde na palma da mão

Saúde na palma da mão

Tecnologia permite baratear custos e melhorar o atendimento, unindo médicos disponíveis, hospitais e aparelhos. Governo investe em incubadora de empresas voltadas para o setor e reconhece a importância da pesquisa

RODOLFO COSTA LETÍCIA COTTA* BRUNO SANTA RITA*
postado em 14/02/2018 00:00
 (foto: Consulta do Bem/Divulgação)
(foto: Consulta do Bem/Divulgação)

O sistema de saúde no Brasil tem encontrado na tecnologia um caminho para melhorar a eficiência. Se quem depende do atendimento público depara-se com falta de profissionais, equipamentos e medicamentos, a burocracia e o alto custo afastam quem paga planos de saúde. O uso de startups permite não só mapear o fluxo de leitos hospitalares, como reunir médico, local e aparelhos para intervenções, reduzindo o tempo de atendimento e o custo dos serviços.

Em uma sexta-feira de 2017, a aposentada Indiana Ludviger, 61 anos, foi diagnosticada com apendicite. Sem ter plano de saúde, tentou agendar uma consulta particular. Apesar da necessidade de cirurgia, foi alertada de que o procedimento não seria agendado rapidamente. Depois de fazer alguns orçamentos, viu que a intervenção custaria cerca de R$ 100 mil. Sem opção, já que na rede pública ficaria meses à espera da cirurgia, recorreu a startup Consulta do Bem.

A plataforma viabiliza o encaixe de cirurgias, exames e consultas em horários vagos de médicos em clínicas, laboratórios e hospitais, em um modelo de economia compartilhada a preços acessíveis. Dessa forma, Indiana conseguiu ser operada um dia depois da confirmação do diagnóstico. ;O atendimento foi excelente, por uma equipe ótima, em um hospital de referência em São Paulo. Não houve burocracia, foi ágil, e paguei R$ 9 mil. Bem menos do que eu havia orçado no método particular convencional;, comemora. Desde então, a aposentada aderiu aos serviços do Consulta do Bem.

A expectativa dela é de que surjam outras startups para atender a procura por saúde no país. ;Tem mercado e demanda. A rede pública não dá conta, e o sistema conveniado regular tem os preços muito salgados. Concorrência é sempre boa;, avalia Indiana.

As startups na área da saúde respondem, atualmente, por 6% do mercado. É o terceiro maior segmento entre essas empresas ; empatado com outras atividades ;, de acordo com a Associação Brasileira de Startups (ABStartups). E não é para menos que seja um nicho em evidência. A oferta de alternativas ao atual e convencional serviço de saúde está quebrando paradigmas e ajudando milhares de brasileiros.

A empresa Mais Leitos atua em uma outra ponta. Auxilia hospitais a fazerem um mapeamento do fluxo de leitos. Com o uso da plataforma, há uma melhora de mais de 30% na fluidez dos leitos ante os hospitais que não utilizam o sistema, possibilitando que mais pessoas consigam atendimento médico e internação. ;Até então, a internação era vista pelo viés de hotelaria, no qual existem processos relacionados ao controle e acompanhamento de situações como monitoramento das camas para limpeza e disponibilidade. Mas toda a parte estratégica era desconsiderada;, ressalta o presidente da companhia, Paulo Pequeno.
O grande desafio das startups na saúde é inovar no setor público. É o que avalia o especialista na criação de soluções digitais e consultor de startups Yan Trindade. Em um país com proporções geograficamente continentais, onde 161,3 milhões de brasileiros não contam com plano de saúde, um obstáculo e tanto. ;Esse mercado tende a agregar mais quando o movimento de inovação chegar ao setor público, para trazer uma maior eficiência, transparência e melhor gerência de recursos;, diz
Para Trindade, existe uma falha governamental na resolução dos problemas e no acesso à saúde, e isso poderia ser resolvido em conjunto, por meio das inovações tecnológicas fornecidas pelas startups. ;O sistema, atualmente, é falho e carece de métricas para entender a fundo os problemas que temos na sociedade;, sustenta. Apesar disso, ele reconhece a tentativa de entendimento do governo sobre o tema. ;O Estado busca entender o que é o ;movimento startup; e fomentar editais, concursos de inovação. Mas as falhas ainda existem;, ressalta.

Parcerias
A tecnologia pode, quer e tem capacidade para auxiliar o sistema de saúde, prega Trindade. Mas as startups só terão papel fundamental se conseguirem na reduzução de custos de consultas, procedimentos e na compra de medicamentos. ;Essas mudanças somente serão possíveis mediante parcerias de longo prazo entre os setores público e privado. Apesar de termos tantas soluções e inovações, nosso sistema ainda é muito lento e burocrático;, lamenta.

Na capital paulista, a integração entre as startups e o Estado começa a virar realidade. O presidente da Consulta do Bem, Marcus Gimenes, afirma que a startup iniciou conversas com a prefeitura, que têm evoluído. ;Os diálogos estão amadurecendo e fazendo parte de projetos pilotos. E só vejo esse modelo crescendo daqui para frente;, analisa.

A união entre as redes pública e privada é um tema com o qual Gimenes está familiarizado. Médico cirurgião cardíaco, ele participou do programa de inovação em cirurgia minimamente invasiva e da Parceria Público-Privada (PPP) da Cirurgia Cardíaca da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Para ele, esse tipo de integração é mais do que essencial.

;Temos visto que o sistema público pensa em como utilizar a estrutura privada para dar vazão aos serviços. Uma boa parte das infraestruturas já existe, principalmente nas grandes metrópoles. Não faz sentido ter uma estrutura separada em público e privado. Não vejo problema em setor público comprar algum espaço do privado, e vice-versa;, pondera Gimenes.

* Estagiários sob supervisão de Rozane Oliveira

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