Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 14/02/2018 00:00
Marchinhas de carnaval

Se alguém quiser conhecer a história não oficial brasileira basta ouvir nossos sambas e marchinhas das décadas de 1940, 1950 e 1960. As ridicularias, as falcatruas, as tolices e as imposturas não passavam impunes por nossa música popular.

No livro Crônica carnavalesca da história (Ed. Thesaurus), o pesquisador carioca/brasiliense Renato Vivacqua reconstitui um pedaço dessa deliciosa história não oficial brasileira, ou seja, uma história vista sob as lentes do humor. E o mais impressionante é a atualidade das referidas crônicas musicais, animadas de verve, inteligência e agudeza crítica.

Para comentar a tragicomédia do tratamento de ;Vossa Excelência; no Congresso Nacional poderíamos, por exemplo, evocar a marchinha Cordão dos puxa-saco, sucesso do carnaval de 1946, em que a dupla Roberto Martins e Frazão espicaça a falsa linguagem de fraque e cartola da política: ;Vossa Excelência, Vossa Eminência/Quanta reverência nos cordões eleitorais/Mas se o doutor cai do galho e vai ao chão/A turma evolui de opinião/E o cordão dos puxa-saco/Cada vez aumenta mais;.

E os que mudam de partido ou que vendem seus mandatos em troca de mensalões em malas ou cuecas são homenageados por uma marchinha de 1879 do Clube Carnavalesco Democrático: ;De manhã, sou liberal/Ao meio-dia, sou republicano/À tarde, conservador/À noite, ultramontano;.

E, sim, temos uma marchinha para funcionar como trilha sonora do caixa 2. Ela é de autoria de Herivelto Martins e Benedito Lacerta e fala das chamadas ;despesas não contabilizadas; do então governador de São Paulo, Ademar de Barros, célebre pelo slogan ;rouba, mas faz;: ;Quem não conhece/Quem não ouvir falar/Na caixinha do Ademar/Que deu livro, deu remédio, deu estrada/Caixinha abençoada/Já se comenta de norte a sul/Com Ademar tá tudo azul;.

Mas deixemos a política de lado e visitemos o campo dos costumes. O nosso grande Nelson Rodrigues, autor da provocação infeliz (;Toda mulher gosta de apanhar. Só as neuróticas que não;), levou umas lambadas em marchinha da dupla Brasinha e Davi Raw: ;Seu Nelson Rodrigues/Para de tanto falar/Mulher que é mulher/Não gosta de apanhar/Falar da vida alheia/É coisa tão feia/Não seja linguarudo/Não seja falador/Na mulher que para nós é tudo/Não se bate nem com uma flor;.

Ao terminar a leitura do livro de Vivacqua, como o carnaval se distancia cada vez mais da consciência política, pulverizado na dispersão da internet, na multiplicidade de interesses minimalistas e nos liames do politicamente correto. No carnaval do ano passado, por exemplo, uma das grandes discussões foi se Amélia que era mulher de verdade era uma canção machista. Enquanto isso, temas dramáticos da vida nacional escapavam da folia.

No momento, existe uma galeria de personagens, ridicularias e cenas grotescas quase a exigir uma sátira. Mais uma vez, a classe política saiu ilesa do carnaval. É por não encontrar resistência crítica que ela exibe cada vez mais a máscara do cinismo.

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