Seis graus de febre

Seis graus de febre

» MARCELO COUTINHO Escritor
postado em 19/02/2018 00:00

Em A Divina Comédia, Dante Alighieri descreve nove círculos do inferno, sendo o primeiro deles, o limbo ; que de infernal tem pouco, aliás, ; e os dois últimos um tanto quanto inespecíficos comparados aos anteriores. Já de acordo com a tradição religiosa mais conhecida seriam sete os pecados capitais ; orgulho, inveja, ira, preguiça, avareza (ou perdularismo), gula e luxúria ;, que, para o clássico escritor italiano corresponderiam, por sua vez, aos círculos do purgatório destinado àquelas pessoas que se arrependeram dos erros ainda em vida. Mesmo correndo o risco de arder na lama do pântano Estige por insolência, atrevo-me a fazer aqui um reparo a Alighieri. Na verdade, o inferno é um fogão de seis bocas.

Com exceção da preguiça, caracterizada justamente pela falta de energia, todas as outras violações bíblicas têm algum tipo de paixão intensa ou vontade extrema motivadora, aquela estranha força que vem de dentro e nos move para o bem ou para o mal. Gula, avareza e luxúria têm, respectivamente, um desejo passional incontrolado por comida, dinheiro e sexo. A inveja significa um querer tudo isso e muito mais que o semelhante possua. Enquanto a ira se define pelo desejo de destruir sem limites aquilo que a provoca, e a soberba, a própria vanglória, cuja jactância é contraditoriamente ávida da admiração alheia.

Portanto, sem a preguiça, para a qual falta empenho, não há que se falar em sete, mas em seis círculos infernais, ou, mais propriamente, energias, ímpetos demoníacos. Convenhamos que a moleza pode até gerar problemas graves indiretamente, mas ela, por si só, não tem qualquer chama do inferno, ela é neutra e deveria receber a absolvição. A inatividade acentuada é exatamente o oposto da sede vampiresca que leva as pessoas a cometerem crimes por suas ações efetivas. No máximo, vadiagem, negligência ou lentidão enervante pode ser acusada de culpa, mas nunca de dolo ou intenção, para usar palavras do direito penal, habituais entre advogados do diabo e das suas vítimas. Além disso, preguiça só vira omissão quando deixa de ser o que é em essência, a ausência de desejo, e passa a preencher-se pela energia da fuga.

Mas o que essa discussão tem de importante? Por certo, não é catequizar ninguém nem tampouco incutir valores afins ou contrários à sociedade puritana capitalista, para a qual o ócio, o não trabalho é, sim, um problema. Trata-se, apenas, de precisar a fonte da vida, dos erros e acertos. A mesma energia que nos faz levantar todos os dias e fazer coisas relevantes para nós mesmos e para a comunidade à qual pertencemos, é aquela que também nos perverte. Daí o segredo que separa céu e inferno. A chave é, digamos, uma só, porém, ela gira em sentidos contrários. Para um deles, abre a porta de Rodin, para o outro, a do paraíso. Seja como for, essa força está dentro de nós. A questão é, portanto, o lado para onde ela cai. Como diria o mestre jedi Yoda: ;Com você está a força;.

Nos dias de hoje, a sociedade experimenta algo inédito. Ela é feita de indivíduos com fogo de palha e inertes. As paixões continuam a nos perseguir, ou nós a elas, mas não se sustentam. Qualquer uma das seis fogueiras queima sem durar muito, porque logo as pessoas se cansam do que estão fazendo ou não resistem às dificuldades, e se viram para outra coisa qualquer mais fácil e imediata. Está aí outra forma de ver as sociedades atuais de solidariedade provisória. Mesma a maior das labaredas é passageira e fugaz, como um amor de verão. Sejam destinados ao bem ou ao mal, os seis graus de febre se tornaram letárgicos, o que torna as sociedades contemporâneas tão criativas quanto superficiais e impotentes. Outro paradoxo está no fato de termos, a um só tempo, uma sociedade altamente plugada, mas também desligada. Desenvolvemos uma aversão ao desapontamento. Somos mais medrosos, avessos às frustrações que martelam o indivíduo até ele se desentusiasmar, desistir, perder sua luz, virando prego achatado.

Queremos prazer sem sacrifício. Nossos heróis são frágeis; os santos, de barro; e a paz, de necrotério. E nem por isso tudo está perdido. Há ainda vida inteligente e sociedade civilizada em meio à miséria da consciência do agora. Enquanto casais caminharem calmamente pela beira da água sob a luz da lua e caminhoneiros ainda derem gentilmente sinais aos de trás para ultrapassar ou esperar nas estradas, temos esperança. A cumplicidade e a solidariedade, embora limitadas, continuam aí. Sem a febre por mudanças, morremos, apagando como um celular sem bateria. Com alguns níveis extras de pirexia, deliramos e até matamos na ânsia de ter sempre mais. O equilíbrio da energia social é composto pela junção de inúmeras usinas, e usinas de forças individuais, que fazem cada um de nós despertar, criar e construir um futuro melhor, sem firmamentos nem trevas a nos vigiarem, nessa incrível comédia humana.

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