A guinada com Menem

A guinada com Menem

postado em 19/02/2018 00:00
 (foto: Internet/Reprodução
)
(foto: Internet/Reprodução )

Carlos Menem não foi o autor material da definição, mas ligou seu nome a ela ao longo dos 10 anos em que governou a Argentina, de 1989 a 1999. Nomeado pelo presidente para o Ministério de Relações Exteriores, em 1991, depois de dois anos como embaixador nos EUA, Guido di Tella anunciou que Buenos Aires pretendia manter com Washington ;relações carnais;. Foi a senha para um realinhamento que traduziu para a linguagem da política externa uma conversão mais ampla e profunda promovida por Menem no ideário do Partido Justicialista, até então enraizado na matriz populista do caudilho nacionalista Juan Domingo Perón.

Em plena vigência da ;revolução conservadora;, iniciada nos EUA por Ronald Reagan (1981-1989) e seguida por George Bush pai (1989-1993), o chanceler argentino alistou o país na aliança costurada para respaldar a primeira Guerra do Golfo, no início de 1991 ; para expulsar do Kwait as tropas do Iraque de Saddam Hussein. Ao longo da década dominada por Menem, a Argentina postou-se ao lado de Washington também no terreno da política econômica e do comércio global, cerrando fileiras com a tentativa de Bill Clinton (1993-2001) para criar a Área de Livre Comércio das Américas (Alca).

A virada promovida por Menem no justicialismo contrastava frontalmente com o lema entoado havia décadas pelos seguidores do velho general, inclusive a ala esquerda do movimento, que nos anos 1970 gerou a guerrilha dos montoneros. Ni yankis, ni marxistas: peronistas, proclamavam pelas ruas as bases sindicais do PJ, alijado do poder pelo golpe militar de 1976. Derrotados na primeira eleição pós-ditadura pelo social-democrata Raúl Alfonsin, em 1983, os herdeiros de Perón retomariam a Casa Rosada em 1989, com Menem, cuja posse foi antecipada em meio a uma onda de saques provocada pela hiperinflação. No discurso de posse, o novo presidente anunciou uma ;revolução produtiva; a ser conduzida pelo ministro da Economia, Miguel Roig, executivo da multinacional Bunge y Born ; que morreria cinco dias após a posse. (SQ)

Outros ;hombres; do presidente


Juan Manuel Santos
  • O presidente da Colômbia é outro dos governantes sul-americanos que, a exemplo de Mauricio Macri, compartilham com Donald Trump a origem e a condição social: nascidos em berço privilegiado e curtidos nos negócios. Juan Manuel Santos, que passará a faixa ao sucessor em meados do ano, após oito de governo, pertence à família que controla o principal grupo de comunicações do país, proprietário do jornal El Tiempo e de emissoras de rádio e tevê. Herdeiro político de Álvaro Uribe, parceiro de George W. Bush na ;guerra ao terror;, o presidente em fim de mandato governou a Colômbia já na condição de aliado estratégico e um dos maiores destinatários de ajuda militar de Washington, essencial para a derrota da guerrilha de esquerda.


Pedro Pablo Kuczynski
  • Foi a trajetória de empresário bem-sucedido que abriu os caminhos da política para Pedro Pablo Kuczynski, inicialmente como ministro da área econômica. Eleito em 2016 para suceder Ollanta Humala, um militar nacionalista que, uma vez no governo, distanciou-se do passado chavista, Kuczynski aprofundou a reorientação do país para uma relação mais próxima com Washington, em particular no terreno econômico. O Peru tem hoje um tratado de livre-comércio com os EUA e integra a Aliança do Pacífico, ao lado de Colômbia, Chile e México. Não por acaso, a capital peruana dá nome ao Grupo de Lima, articulação entre 14 governos das Américas formada para pressionar o regime chavista da Venezuela.


Sebastián Piñera
  • Em março próximo, mais um homem de negócios estará à frente de um país sul-americano, embora já não como estreante. O novo presidente do Chile retorna ao Palácio de La Moneda quatro anos depois de ter dado posse à socialista Michelle Bachelet ; de quem recebera a faixa em 2010. Na campanha vitoriosa do ano passado, Sebastián Piñera reafirmou as linhas-mestras da política econômica perseguida no primeiro mandato, centrada nas privatizações e na abertura comercial. Além de reforçar o time da centro-direita no subcontinente, o empresário tende a ampliar a rede de alianças de Donald Trump em sua estratégia de isolamento diplomático de Nicolás Maduro e de esvaziamento de foros como a Unasul e a Celac.


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