Relações carnais 2: o reencontro

Relações carnais 2: o reencontro

Mauricio Macri relança a Argentina como pivô da estratégia de Washington para a América do Sul, como no governo de Carlos Menem, e consolida na política a relação empresarial construída com Donald Trump

Silvio Queiroz
postado em 19/02/2018 00:00
 (foto: Brendan Smialowski/AFP - 27/4/17
)
(foto: Brendan Smialowski/AFP - 27/4/17 )

Mauricio Macri viaja a Lima, dentro de um mês, para participar da Cúpula das Américas, decidido a firmar a própria imagem como ;o cara; de Donald Trump na América do Sul. No vácuo aberto pela crise política, social e econômica que há alguns anos amarra o Brasil, o presidente da Argentina transita com desenvoltura, em especial desde o ano passado, para encabeçar o realinhamento político do subcontinente com os Estados Unidos. Sem repetir a fórmula de maneira explícita, Macri protagoniza uma continuação tardia do romance político encenado nos anos 1990, quando o governo do peronista Carlos Menem proclamou que Buenos Aires e Washington mantinham ;relações carnais;.

;Os EUA dão as boas-vindas à Argentina em seu retorno aos postos de liderança mundial;, disse o secretário de Estado Rex Tillerson, no início do mês, ao encerrar visita a Buenos Aires, uma das escalas capitais de uma viagem pela América Latina. Antes de partir do Texas, com destino ao México, ele enunciara as linhas mestras da política do governo Trump para a região ; tendo como centro o isolamento do governo chavista da Venezuela. Nos encontros que manteve na capital portenha com Macri e com o chanceler Jorge Faurie, o chefe da diplomacia americana afinou com o parceiro preferencial uma articulação complementada na escala seguinte, no Peru: a exclusão do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, da reunião de cúpula, que se realizará em Lima.

;Desde 2015, Macri vem reorientando a política externa argentina;, explica Leandro Morgenfeld, historiador da Universidade de Buenos Aires e coordenador de estudos sobre os EUA no Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso). Nos anos anteriores, lembra o estudioso, a presidente Cristina Kirchner cerrou fileiras com os colegas brasileiros Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, além do uruguaio José Mujica e do falecido líder venezuelano Hugo Chávez, na promoção de órgãos como a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). ;Trump tem em Macri um aliado funcional para reposicionar os EUA na região, isolar o bloco bolivariano e restabelecer a primazia da Organização dos Estados Americanos (OEA, com sede em Washington);, completa Morgenfeld.

Não passou despercebido, aos observadores do cenário internacional, que Tillerson tenha escolhido Buenos Aires ; e não Brasília ; como palco para costurar a rede de alianças em recomposição na América do Sul. A visita do secretário de Estado foi a segunda de peso, em pouco mais de um ano de gestão Trump, na qual o governo de Michel Temer foi ;contornado;. Em agosto passado, foi a vez de o vice-presidente Mike Pence ignorar o Brasil para acenar, na capital argentina, com a ideia de uma possível intervenção militar na Venezuela. Macri não perdeu tempo em visitar a Casa Branca e ser recebido por Trump, enquanto Temer teve de se contentar com um encontro breve de 15 minutos, durante um jantar oferecido a governantes das Américas à margem da Assembleia-Geral das Nações Unidas, em setembro passado.

Velhos amigos

Pesa também, para a sintonia entre Trump e Macri, uma amizade que data de três décadas, quando o grupo empresarial de Franco Macri, pai do presidente argentino, entrou em negociações com as empresas do magnata americano dos imóveis para a construção de um arranha-céu de 150 andares em Nova York. O projeto não prosperou, mas a relação pessoal, sim. Em 2012, muito antes de entrar a sério na empreitada vitoriosa de conquistar a Casa Branca, o atual presidente americano hospedou-se na quinta Los Abrojos, propriedade da família Macri na Província de Buenos Aires. Na ocasião, citou os anfitriões entre ;os grandes homens de negócios da região;.

;EUA e Argentina mantêm uma relação bilateral muito intensa e multifacetada, já há tempo;, pondera Gabriel Puricelli, analista do Laboratório de Políticas Públicas, de Buenos Aires. ;Ela não depende das impressões pessoais e das opiniões que um presidente possa ter sobre o outro.; O alcance da avaliação poderá ser medido em julho próximo, quando Macri receberá Trump na condição de anfitrião da reunião de Cúpula do G20.

"Os EUA dão as boas-vindas à Argentina em seu retorno aos postos de liderança mundial;
Rex Tillerson, secretário de Estado norte-americano


Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação