Uma questão de escolha

Uma questão de escolha

Adriana Bernardes adriana.bernardes@cbnet.com.br
postado em 19/02/2018 00:00
Estou para onhecer algo mais traiçoeiro que a vida. Existir, definitivamente, não é para qualquer um. Em tempos complexos como o que vivemos, menos ainda! Não bastasse a brevidade da existência humana ; que o digam os familiares das vítimas mortas e os sobreviventes do acidente da BR-020, na última quinta-feira ;, a humanidade segue cada vez mais ensandecida.

Talvez a razão para tanta falta de razão seja a velocidade com que o planeta muda. As novas tecnologias transformam o mundo do trabalho de um ano para o outro. Estudos apontam que, até 2021, as inovações tecnológicas terão tirado 7 milhões de empregos no globo. Estamos preparados para encarar a realidade que está por vir?

Mas as mudanças também passam pelas relações humanas. Todos parecem conectados uns aos outros. Só parecem. A sociedade está mergulhada no egoísmo. A maioria dos likes do Facebook e os coraçõezinhos do Instagram se encerram em si mesmos. Os encontros casuais, por mais efusivos que pareçam, via de regra terminam com um ;precisamos marcar alguma coisa;. E o novo encontro jamais acontece. Eu mesma já protagonizei essa cena. No meu caso, o reencontro não se deu por duas razões: realmente não quero conviver com a pessoa, ou porque sou atropelada pela vida.

É triste pensar que Zygmunt Bauman tenha razão quando discorre sobre o novo jeito de a sociedade moderna se relacionar em Amor Líquido ; Sobre a fragilidade dos laços humanos. Melhor seria se voltássemos a ter tempo, e, acima de tudo, disposição para nos dedicar verdadeiramente ao outro. Caso Bauman esteja certo, muitas das nossas relações têm laços frouxos, para que possamos apertá-los ou soltá-los conforme nossa conveniência. Será mesmo?

O estilo de vida que se tem é fruto da falta de tempo ou de escolhas equivocadas? Pense: entre assistir uma série ou contar estrelas tomando um vinho, o que você faz? Tomar banho de chuva, quando ela cai morna no verão, ou amaldiçoar o mau (?) tempo? Sentir o sol queimar a pele, aquecer e iluminar a alma, ou se trancar numa sala com ar-condicionado?

Na vida, pode-se sentar debaixo da paineira florida e sentir o cheiro adocicado de suas flores rosadas ou reclamar da ;sujeira; na calçada. Pode-se gargalhar com um amigo até a barriga doer. Com este mesmo amigo, pode-se ter a mesma experiência gargalhando de alguém e provocando o sofrimento alheio. Viver é para poucos. Como se vive, é, em muitos momentos, uma questão de escolha.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação