Águas de março

Águas de março

ADRIANA BERNARDES adrianabernardes.df@dabr.com.br

postado em 22/02/2018 00:00
A próxima quarta-feira marca o fim da estação chuvosa no Hemisfério Sul. Para o Distrito Federal, que vive uma crise hídrica sem precedentes, a data deve ser encarada como um alerta. Se voltou a chover na região e as metas estabelecidas pela Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico (Adasa) para o nível de água dos reservatórios de Santa Maria e do Descoberto foram superadas, é preciso ter a consciência de que a ameaça da falta d;água ainda é real. Para se ter uma ideia, em 21 de fevereiro de 2016, portanto, antes da crise hídrica, o nível do Descoberto estava em 84,1% e, ontem, em 54,2%. Nessa mesma data, a medição da quantidade de água no reservatório de Santa Maria era de 81,8% e, ontem, apenas 40,4%.

Levantamento da Companhia de Saneamento Ambiental do DF (Caesb) mostra que o brasiliense, em geral, se sensibilizou, mudou os hábitos e reduziu o consumo. Até porque não havia outra opção, especialmente com a política de rodízio de corte de água. Durante o período chuvoso e com chuvas acima da média, como tem ocorrido, há o risco de arrefecimento da vigilância sobre o desperdício.

Mas não tarda e veremos ;as águas de março fechando o verão;, como na canção de Tom Jobim. As precipitações ficarão mais espaçadas até que, novamente, viveremos a sensação sufocante de umidade do ar abaixo dos 30%, quando fica difícil respirar, o nariz seca, sangra, e todos passam a pajear as nuvens como se isso fizesse chover. Mas, por aqui, os primeiros pingos só voltam a encharcar a terra entre meados de setembro e início de outubro. Não há mandinga ou torcida que dê jeito.

Em março, a cidade acolhe especialistas de diferentes cantos do planeta para tratar justamente desse tema. É uma oportunidade única para governo, entidades organizadas e sociedade civil entenderem de uma vez por todas a gravidade do problema e, principalmente, tirar lições sobre o que fazer para garantir o uso sustentável do recurso que é finito.

A população do Distrito Federal não para de crescer. Assim como a das cidades goianas e mineiras que cercam Brasília. A tendência é de aumento do consumo, tanto urbano quanto rural. É preciso estabelecer uma política pública de gestão dos recursos hídricos para já e para o futuro. Pois ninguém pode alegar desconhecimento do problema. Até porque a crise hídrica de agora era prevista por especialistas no assunto havia pelo menos uma década e nada se fez ao longo dos anos para amenizar a escassez de água.




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