Outra eleição antecipada

Outra eleição antecipada

Presidente chavista pede a convocação de nova disputa legislativa para abril, na mesma data em que disputará mais um mandato. Com seus líderes fora do jogo, a oposição ignora o desafio e formaliza a decisão de boicotar o pleito

postado em 22/02/2018 00:00
 (foto: Federico Parra/AFP)
(foto: Federico Parra/AFP)


No mesmo dia em que as principais forças da oposição venezuelana formalizaram a decisão de boicotar a eleição presidencial, antecipada do fim do ano para 22 de abril, o presidente Nicolás Maduro propôs à Assembleia Constituinte, composta exclusivamente por governistas, que marque para a mesma data a escolha do novo Legislativo. Quando convocou a Constituinte, em julho passado, Maduro dissolveu a Assembleia Nacional eleita em fins de 2015, na qual a coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD) detinha quase dois terços das cadeiras.

;Vamos ter eleições, chova, troveje ou relampeje, com a MUD ou sem a MUD;, disse Maduro, pouco depois da coalizão opositora anunciar que ficará de fora da votação, que classifica como ;uma fraude; destinada a dar ao governo chavista ;uma aparência de legitimidade;. Falando à imprensa, o presidente assegurou que pedirá à Constituinte que ;tenhamos eleições poderosas;, encampando a ideia lançada na véspera pelo ;número dois; do chavismo, Diosdado Cabello.

Pouco antes, em comunicado lido para os jornalistas por seu coordenador, Ángel Oropeza, a MUD anunciou a decisão de boicotar o que chamou de ;um simulacro fraudulento e ilegítimo de eleição; presidencial. ;Esse evento prematuro e sem condições é apenas um show do governo para aparentar uma legitimidade que não tem, em meio à agonia e ao sofrimento dos venezuelanos;, diz o texto.

Sem rival de peso à vista, Maduro parece assegurar a reeleição, embora seja reprovado por 75% dos venezuelanos, de acordo com pesquisas, devido ao colapso econômico e à escassez aguda de alimentos, remédios e outros gêneros. ;Talvez ele esteja em seu momento mais fraco, mas sua força está na falta de união e de coerência da oposição;, comentou Félix Seijas, diretor da empresa de pesquisa Delphos.

Depois de garantir a antecipação da disputa presidencial e encomendar o adiantamento também da eleição legislativa, o presidente renovou os desafios à MUD. ;Se não vão participar das eleições, para onde vão? Para a guerra, para um golpe de Estado;, provocou. Para Seijas, ;a aposta de Maduro é fazer desaparecer a oposição, dar-lhe um golpe de misericórdia e assumir o poder pleno;.

O adiantamento das eleições presidenciais foi rejeitado pelos 14 países do Grupo de Lima, articulação entre governos das Américas que inclui Brasil, Argentina, Chile, Colômbia e Peru, entre outros. Assim como Estados Unidos, Canadá e México, os vizinhos sul-americanos não veem garantias para um processo livre. ;A opção menos custosa para a oposição, mas que também é terrível, é não participar;, analisa o diretor da Delphos.

De acordo com o governo venezuelano, a MUD não participa das eleições ;por ordem dos EUA;, que, alegam os chavistas, buscam derrubar Maduro por meio de um golpe de Estado e uma invasão militar apoiada ;pela direita (venezuelana);. Maduro, herdeiro político do falecido líder socialista Hugo Chávez, tinha advertido que ia tentar se reeleger, com ou sem adversários.

Em crise de credibilidade e com seus principais líderes ; Leopoldo López e Henrique Capriles ; inabilitados politicamente, a MUD debateu por duas semanas a decisão, sob pressão de alguns países que já tomaram a decisão de não reconhecer os resultados das eleições. O dirigente opositor Henry Ramos Allup, ex-presidente da Assembleia Nacional, mantém aspirações presidenciais. Henri Falcón, ex-governador dissidente do chavismo, também parece disposto a se inscrever.



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