Caminhoneiros sofrem com longas jornadas

Caminhoneiros sofrem com longas jornadas

Contra o tempo e com a falta de segurança nas estradas, caminhoneiros enfrentam cada vez mais longas jornadas sem dormir. Brasil terá o maior laboratório da América Latina do exame toxicológico para motoristas de carga

DEBORAH FORTUNA Especial para o Correio
postado em 27/02/2018 00:00
Aguentar as longas horas de trabalho sem dormir é um dos principais desafios dos motoristas de caminhão. Quando a noite chega à estrada, o percurso se torna cada vez mais inseguro. Na maioria das vezes, esses profissionais já estão em uma longa jornada, longe de casa. Não há lugar para descansar e, em muitos casos, o cansaço fala mais alto que a luta para se manter desperto. Alguns, para suportar a rotina estressante e exaustiva, acabam procurando ajuda de substâncias ilícitas. É nesse ponto que, com a habilidade e coordenação motora prejudicadas, eles provocam acidentes graves nas estradas, e arriscam perder a própria vida.

Em janeiro de 2018, o Seguro de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre (DPVAT) registrou mais de 1,6 mil casos de indenização por morte, invalidez permanente ou despesas médicas em acidentes envolvendo caminhões, ônibus, micro-ônibus e vans. Apesar de representar 4% da frota nacional, esses veículos correspondem a 38% dos acidentes nas rodovias federais. De acordo com a Polícia Rodoviária Federal, metade dos acidentes envolvendo caminhões no ano de 2016 teve mortos ou feridos graves.

É para lutar contra esse quadro crítico e transformar o cenário no Brasil que o exame toxicológico para motoristas de carga foi implementado há dois anos. Agora, há outra novidade que pode melhorar ainda mais a segurança no trânsito: A Labet Exames Toxicológicos, em parceria com a Quest Diagnostics, líder mundial no mesmo procedimento, com sede nos Estados Unidos, vai inaugurar o maior laboratório do exame de larga janela na América Latina. A unidade ficará em Santana do Parnaíba, em São Paulo, e terá a capacidade de realizar 15 mil análises diárias. Com a construção da unidade no Brasil, as pesquisas deixam de ser enviadas para os Estados Unidos. O investimento é de R$ 80 milhões, dos quais R$ 60 milhões em equipamentos de última geração.

;Agora, a gente vai fazer no Brasil com os critérios da patologia americana, que é um conjunto de procedimento mais rigoroso. O que isso muda? Os laboratórios brasileiros vão ter que usar o mesmo rigor que o Colégio Americano de Patologia usa nos Estados Unidos;, explicou o presidente do Instituto de Tecnologias para o Trânsito Seguro (ITTS) e do conselho da Labet, Márcio Liberbaum. Por isso, o exame também prega as melhores condições para os profissionais da área.

Segundo Liberbaum, a política pública do teste tem como primeiro alvo a redução do tempo de jornada dos motoristas, assim, há uma melhoria para os profissionais, e, consequentemente, para a comunidade. ;No Brasil, há milhões de caminhoneiros, e eles participam de mais de 38% dos acidentes nas rodovias, e mais de 53% das vítimas que morrem. A gente percebe que há um desvio aí. Os motoristas são colocados em altas cargas de trabalho, e eles fazem o possível e impossível para não dormir. Assim, colocam em risco todo mundo que está ali;, afirmou Liberbaum.

Para todos

Apesar de os caminhoneiros não serem contra o exame, eles lutam para que o teste seja para todos os motoristas, e não apenas para as categorias C, D e E. É o caso de Givanildo Carlos de Vila, 36 anos, que está na estrada há 16. ;Toxicológico não deveria ser só para caminhoneiro e sim para todo mundo. Isso ajudaria bastante em questão de segurança;, argumentou. É a mesma crítica do diretor-presidente da União Nacional dos Caminhoneiros (Unicam), José Araújo. ;Tem que ser para todos. Se é para resolver o problema de acidentes, tem que se fazer. Se for em rodovia ou cidade mesmo, também;, comentou Araújo.

Para os motoristas Cleber Queiroz, 50 anos e Floriano Pereira da Silva, 44 anos, mudar as condições de trabalho dos profissionais traria melhorias para toda a sociedade. ;Tem que oferecer condição para o motorista ser gente. A gente chega um pouco sujo e todo mundo já sabe que é motorista. Às vezes, você não pode nem encostar em um posto para dormir, se não tiver dinheiro;, contou Cleber. Para Floriano, a questão principal é dar oportunidade para que o motorista possa parar. ;Se você sair daqui e procurar um lugar para dormir até Belo Horizonte, não tem. Às vezes, você tem que sacrificar mais uns 200km de sono;, completou. Apesar de o uso de substância para ficar acordado não ser novidade, Floriano avalia que agora as drogas são mais visadas. ;Maconha e cocaína. Tudo isso para aguentar. Está triste. Você vê gente fumando crack, é vergonhoso. Isso aqui (caminhão) é uma bomba;, afirmou.

O que diz a lei
A Lei n; 13.103/15 diz que ;serão exigidos exames toxicológicos, previamente à admissão e por ocasião do desligamento, quando se tratar de motorista profissional, assegurados o direito à contraprova em caso de resultado positivo e confidencialidade dos resultados dos respectivos exames;.
Segundo o texto, os condutores das categorias C,D e E devem se submeter a exames toxicológicos para a habilitação e renovação da Carteira Nacional de Habilitação.
Em média, 400 mil motoristas não estão renovando a CNH nessas categorias.
O exame tem a detecção máxima de 90 dias.
Quatro famílias de drogas são detectadas pelo exame do fio de cabelo: anfetaminas (;rebites;), cocaína, opiáceos e maconha.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação