Embate para indicar sucessor na Fazenda

Embate para indicar sucessor na Fazenda

Possível candidatura de Meirelles à Presidência precipita discussão sobre quem assumirá o comando da equipe econômica. Para disputar a eleição, porém, o ministro precisa superar barreiras políticas e melhorar nas pesquisas

» ANTONIO TEMÓTEO » HAMILTON FERRARI - ESPECIAL PARA O CORREIO
postado em 27/02/2018 00:00
 (foto: Wilson Dias/Agencia Brasil - 27/9/17)
(foto: Wilson Dias/Agencia Brasil - 27/9/17)


Sem ainda ter emplacado a candidatura ao Palácio do Planalto, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, está no meio de um embate para escolher quem o sucederá no comando da equipe econômica. Meirelles é favorável à nomeação do secretário-executivo da pasta, Eduardo Guardia, mas enfrenta oposição do líder do governo no Congresso Nacional, senador Romero Jucá (MDB-RR), que defende o nome do ministro da Planejamento, Dyogo Oliveira, para ocupar o posto.

Interlocutores de Meirelles minimizam as barreiras à sua candidatura e a queda de braço com Jucá. Um deles detalhou que seria natural ele ter a prerrogativa de escolher alguém da própria equipe para substituí-lo. ;A lógica é a de que ele deixasse o cargo para o secretário-executivo. Jucá pode ter interesse, mas, no fim, quem decide é o presidente Michel Temer;, afirmou.

No Ministério da Fazenda, entretanto, o movimento de troca de comando é considerado precipitado, porque Meirelles ainda não definiu se vai disputar a presidência. Em entrevistas anteriores, ele disse de que continuaria na Fazenda até o fim de 2018 se não for candidato, e que só concorrerá com apoio do governo.

Jucá está no grupo dos que têm protagonizado embates com o ministro da Fazenda. Em diversas oportunidades, ele se antecipou a Meirelles e anunciou medidas econômicas antes do ministro. Na semana passada, o senador afirmou que Dyogo Oliveira é o melhor nome para chefiar a equipe econômica caso Meirelles deixe o posto. Oliveira caiu nas graças de Temer após sugerir os saques de contas inativas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e do PIS/Pasep. Discreto, o chefe do Planejamento tem evitado os holofotes e orientou os auxiliares mais próximos a não comentarem a possibilidade de ele ir para a Fazenda.

O sonho de Meirelles de ocupar o Planalto em 2019 ganha novos obstáculos a cada semana. Bem visto pelo mercado financeiro, empresários e investidores, ele encontra resistências no meio político para ser aclamado como o candidato de centro que continuaria a executar a agenda de reformas e ajustes necessários para colocar a economia nos trilhos.

As principais oposições ao ministro partem do próprio partido, o PSD, integrante da base do governo, que analisa as chances de o presidente Michel Temer concorrer à reeleição, e do PSDB, que busca o apoio do chefe do Executivo para disputar o pleito.

Reações


De olho nos movimentos que tentam barrar sua candidatura, Meirelles afirmou ontem que, ;se o PSD decidir fechar questão em São Paulo, certamente há convites de outros partidos;, disse, sem identificar as agremiações que o procuraram. As declarações são uma reação às costuras políticas do presidente do PSD, o ministro de Ciência, Tecnologia e Comunicações, Gilberto Kassab, que negocia uma vaga de vice na provável chapa liderada por João Doria (PSDB) ao governo de São Paulo. Em troca, o PSD apoiaria a candidatura do atual governador do Estado, Geraldo Alckmin (PSDB) à Presidência da República.




Após as declarações do correligionário, Kassab elogiou o ministro da Fazenda, mas indicou que ele pode ficar fora do páreo. ;No momento certo, o ministro ou o partido vai definir se um candidato nosso, pelas circunstâncias, não por suas qualidades, é adequado para disputar as eleições, ou se iremos partir para uma coligação. Vamos aguardar mais alguns dias;, disse.

Em reunião com o presidente Temer no fim de semana, Meirelles ouviu que precisa melhorar o desempenho nas pesquisas até abril se quiser ser aclamado como candidato do MDB ao Planalto. Durante o encontro, o presidente disse que não pretende ser candidato, mas que seria necessário angariar o apoio dos caciques do partido, entre eles o senador Romero Jucá (MDB-RR), para disputar a corrida eleitoral.

Outro interlocutor ressaltou que o ministro terá que definir se vai sair do ministério e se vai mudar de sigla até 7 de abril. O prazo está cada vez mais apertado, mas nem o PSD e nem o MDB demonstram entusiasmo pelo nome. Na noite de domingo, por meio das redes sociais, Meirelles reforçou a intenção de ser candidato. Na postagem, lembrou que foi presidente mundial de um banco presente em 32 países. ;Tinha atingido o máximo na carreira, mas pensei: o que estou fazendo aqui? Eu estudei em colégio público no Brasil. Está na hora de devolver ao povo brasileiro um pouco de tudo aquilo que ele me proporcionou;, afirmou.

As dúvidas quanto à candidatura do ministro do Fazenda vão além das disputas políticas. Muitos avaliam que falta a ele carisma e facilidade de interlocução com o povo. Na avaliação do cientista político Cristiano Noronha, da Arko Advice, o ministro não consegue assumir uma bandeira efetivamente positiva. ;Se ele deixar o Ministério da Fazenda agora, parece que não terá muitos elementos favoráveis para alavancar a candidatura. Não há nenhuma agenda grandiosa que ele esteja conduzindo;, considerou.

Fora isso, o Palácio do Planalto não vê, em Meirelles, o nome que vai cativar a sociedade. Parlamentares do PSD também afirmam que ele não têm as condições necessárias para ser um candidato competitivo. ;Não há dúvidas no governo de que ele tem amplo apoio do mercado, mas o discurso ainda é muito econômico, o que não agrada aos eleitores;, disse um interlocutor palaciano.


  • Dívida cai 0,87%

    A dívida pública federal (DPF) caiu 0,87% em janeiro, atingindo
    R$ 3,53 trilhões. Os dados foram divulgados ontem pelo Tesouro Nacional. Em dezembro, o estoque estava em R$ 3,56 trilhões. Segundo o Tesouro, a queda ocorreu devido ao resgate líquido de papéis, que somou R$ 109,3 bilhões, mais do que a soma das emissões, que totalizaram R$ 56,8 bilhões, com o valor da incorporação de juros no estoque de títulos, que foi de R$ 21,7 bilhões. A DPF inclui a dívida interna e externa. A dívida pública mobiliária federal interna (DPMFi) caiu 0,87%, para R$ 3,4 trilhões. Já a dívida pública federal externa (DPFe) ficou 0,76% menor, somando R$ 122,8 bilhões.

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