Mais armas, mais violência

Mais armas, mais violência

» Luís Eduardo Girão Empresário
postado em 27/02/2018 00:00
O drama das famílias dos 14 estudantes e três professores brutalmente assassinados por um jovem atirador em uma escola pública da Flórida, nos Estados Unidos, trouxe à tona, mais uma vez, o futuro que nos assombra, no Brasil, com a proposta pronta para ser votada no Congresso Nacional, visando afrouxar o Estatuto do Desarmamento. Esse foi o 1.606; ataque em massa de atiradores no país americano, desde 2012, quando 20 crianças entre 6 e 7 anos de idade e seis adultos foram mortos na escola Sandy Hook, em Connecticut.

E o pior é que as tragédias sucessivas não têm sido suficientes para sepultar ideias insanas como a recente proposta de armar, também, os professores. Preferem ignorar que estes têm a sublime função de ensinar e de marcar o desenvolvimento de crianças e de adolescentes com a força do conhecimento e do exemplo, e é isso que se deve levar de herança deles para o resto da vida.

Empurrar para essa categoria a tarefa dos profissionais da segurança, que precisam de treinamentos e capacitações específicas para estarem aptos a proteger os cidadãos, é uma ideia covarde, de gritante irresponsabilidade, que só contribuiria para levar a sociedade de volta aos tempos sinistros do faroeste, bangues-bangues, à lei do mais forte ; leia-se, dos mais armados. E que beneficiaria, apenas, a riquíssima e poderosa indústria de armas. Retrato de uma sociedade doente, intolerante, egoísta, baseada na vingança e na resposta individual.

A revolta e o ódio não podem triunfar sobre o amor e a paz. Precisamos ser razoáveis e usar a lógica, o bom senso. Morando na Flórida há dois anos, senti no peito o desespero das famílias que nunca mais terão os seus filhos de volta. As vítimas do recente massacre eram colegas de escola de meus dois filhos adolescentes. O meu filho estava entre os que conseguiram sair do prédio quando o criminoso disparou o alarme de incêndio para que todos corressem e, assim, ele pudesse matar mais gente. A minha filha, no entanto, ficou presa em uma das salas com outros alunos, junto ao corpo do professor, baleado ao tentar fechar a porta para salvá-los.

Do lado de fora, restou-me tentar acalmar os outros pais e rezar pela vida de todos. Tive a bênção de poder abraçar meus filhos de volta, salvos. E sou especialmente grato, também, por ver que os jovens americanos, em solidariedade às vítimas de Parkland, não se deixaram abater pelas falácias alimentadas pelos armamentistas e ocuparam as ruas, exigindo políticas de controle e rigor nas vendas de armas aos cidadãos. Com mensagens como ;proteja crianças, e não armas; e ;nunca mais;, numa referência à sequência de matanças que nunca cessa, eles dão um recado crucial, que cai como um alerta, também, para o Brasil.

Desfigurar o Estatuto do Desarmamento com a desculpa de ;resolver o problema da segurança; é querer apagar incêndio jogando gasolina, um retrocesso que nos levará a uma situação de violência ainda mais grave do que a atual. É importante observar que essa questão não se trata de uma mera queda de braço entre posicionamentos da direita ou da esquerda. O quadro de violência transcende qualquer tentativa de conotação ideológica. Estamos tratando de vidas e o debate, por isso, precisa se escorar em evidências científicas, que temos de sobra.

Pesquisas do Ipea comprovam que quanto mais armas em circulação, mais mortes. ;Concluímos que 1% a mais de armas nas cidades faz aumentar a taxa de homicídio em 2%;, afirma o premiado economista Daniel Cerqueira, lembrando que esse resultado, além de ser consenso entre especialistas internacionais, vai ao encontro do maior estudo sobre essa correlação feito nos EUA, publicado no American Journal of Public Health.

As pesquisas comprovam que o Estatuto do Desarmamento rompeu com a escalada de homicídios cometidos com armas de fogo. A taxa de homicídios cresceu 21,4%, de 1995 a 2003. Depois que o Estatuto entrou em vigor, esse crescimento caiu para 0,3% nos anos seguintes, até 2012. Isto significa que a lei poupou mais de 121 mil vidas, número de homicídios que teriam ocorrido se a taxa seguisse no ritmo de crescimento anterior à política de controle de armas.

Os estudos, de acordo com Cerqueira, também mostram que esses resultados poderiam ter sido muito melhores se o esforço para fazer cumprir as normas de controle fossem maiores e mais uniformes, em todas as regiões do país. Por que, então, não refletir e decidir com base na razão? Por que não apostar em mais investimentos nas forças de segurança, dando condições mais adequadas às nossas polícias para retirar e destruir as armas que estão nas mãos dos bandidos?

As conclusões dos estudos, cientificamente fundamentadas, e a urgência de oferecer segurança à população ; reivindicação de toda a sociedade, acuada ante a violência crescente ; comprovam que o momento não é de destruir, mas, sim, de consolidar o Estatuto e dar condições aos estados de investir fortemente no controle de armas e, assim, proteger os seus cidadãos. Vidas se salvam com prevenção.

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